UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E NATURAIS DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS SHIARA ARRUDA DE SOUZA “REFLOR-&-SER”: A GINECOLOGIA NATURAL COMO RESISTÊNCIA À MEDICALIZAÇÃO DA VIDA E LOCUS DE PERCEPÇÃO DAS AGÊNCIAS DO REINO VEGETAL. VITÓRIA 2021 Shiara Arruda de Souza “REFLOR-&-SER”: A GINECOLOGIA NATURAL COMO RESISTÊNCIA À MEDICALIZAÇÃO DA VIDA E LOCUS DE PERCEPÇÃO DAS AGÊNCIAS DO REINO VEGETAL. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Ciências Sociais, Centro de Ciências Humanas e Naturais, Universidade Federal do Espírito Santo como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais. Orientadora: Profª Dra. Andrea Barbosa Osorio Sarandy. VITÓRIA 2021 Ficha catalográfica disponibilizada pelo Sistema Integrado de Bibliotecas - SIBI/UFES e elaborada pelo autor Souza, Shiara Arruda de, 1983- S719" “REFLOR-&-SER”: A GINECOLOGIA NATURAL COMO RESISTÊNCIA À MEDICALIZAÇÃO DA VIDA E LOCUS DE PERCEPÇÃO DAS AGÊNCIAS DO REINO VEGETAL. / Shiara Arruda de Souza. - 2021. 202 f.: il. Orientadora: Andrea Barbosa Osorio Sarandy. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) - Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Ciências Humanas e Naturais. 1. Ginecologia Natural. 2. Corpo. 3. Medicalização do Corpo Feminino. 4. Gênero. 5. Agência do Reino Vegetal. I. Sarandy, Andrea Barbosa Osorio. II. Universidade Federal do Espírito Santo. Centro de Ciências Humanas e Naturais. III. Título. CDU: 316 Shiara Arruda de Souza “REFLOR-&-SER”: A GINECOLOGIA NATURAL COMO RESISTÊNCIA À MEDICALIZAÇÃO DA VIDA E LOCUS DE PERCEPÇÃO DAS AGÊNCIAS DO REINO VEGETAL Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais do Centro de Ciências Humanas e Naturais, da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do Grau de Mestre em Ciências Sociais. Aprovada em 06 de dezembro de 2021. Comissão Examinadora: Profª. Drª. Andrea Barbosa Osorio Sarandy (UFES) Orientadora e Presidente da Sessão Profª Drª. Nicole Soares Pinto (UFES) Examinadora Interna Profª. Drª. Cristiana Losekann (UFES) Coordenadora Por: Profª. Drª. Eliane Sebeika Rapchan (UEM) Examinadora Externa UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO PROTOCOLO DE ASSINATURA O documento acima foi assinado digitalmente com senha eletrônica através do Protocolo Web, conforme Portaria UFES nº 1.269 de 30/08/2018, por CRISTIANA LOSEKANN - SIAPE 1778603 Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais Coordenação do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais - PPGCS/CCHN Em 07/12/2021 às 08:25 Para verificar as assinaturas e visualizar o documento original acesse o link: https://api.lepisma.ufes.br/arquivos-assinados/325369?tipoArquivo=O Este documento foi assinado digitalmente por CRISTIANA LOSEKANN Para verificar o original visite: https://api.lepisma.ufes.br/arquivos-assinados/326899?tipoArquivo=O536 https://api.lepisma.ufes.br/arquivos-assinados/325369?tipoArquivo=O UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO PROTOCOLO DE ASSINATURA O documento acima foi assinado digitalmente com senha eletrônica através do Protocolo Web, conforme Portaria UFES nº 1.269 de 30/08/2018, por NICOLE SOARES PINTO - SIAPE 2361122 Departamento de Ciências Sociais - DCS/CCHN Em 08/12/2021 às 10:37 Para verificar as assinaturas e visualizar o documento original acesse o link: https://api.lepisma.ufes.br/arquivos- assinados/326899?tipoArquivo=O Este documento foi assinado digitalmente por NICOLE SOARES PINTO Para verificar o original visite: https://api.lepisma.ufes.br/arquivos-assinados/326899?tipoArquivo=O Dedico essa pesquisa a minha linhagem ancestral feminina, especialmente minha mãe Eni Luiza e minha avó Lurdes Fortuna por serem mulheres fortes e aguerridas que me ensinaram a jamais esmorecer frente a uma dificuldade. Dedico ainda à todas as mulheres que lutaram antes de mim e a todas que ainda vão lutar! Dedico pôr fim ao Reino Vegetal que me faz sempre - como nas palavras de Manoel de Barros - “transver o mundo”. AGRADECIMENTOS Agradeço ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PGCS), aos professores e colegas de turma que fizeram parte do meu processo de formação enquanto pesquisadora. Cada uma dessas pessoas contribuiu para o meu aprimoramento acadêmico. Agradeço aos técnicos da Secretaria Integrada de Pós-Graduação (SIP) que estiveram sempre disponíveis e solícitos atendendo prontamente às demandas burocráticas. Um agradecimento especial para a Professora Dra. Andrea Barbosa Osorio Sarandy que foi mais do que orientadora, foi a bússola certeira dessa incrível viagem chamada pesquisa, esteve sempre presente de forma generosa compartilhando seus conhecimentos e suas experiências. Agradeço as facilitadoras do curso de Ginecologia Natural por compartilharem com tanto entusiasmo seus saberes e perspectivas. Sou ainda imensamente grata às políticas públicas de incentivo a educação e pesquisa do Estado do Espírito Santo que por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (FAPES) financiaram a realização dessa pesquisa me possibilitando dedicação exclusiva a esse trabalho. É preciso ressaltar o cuidado que esta instituição teve em relação às questões desafiadoras impostas pela pandemia de COVID-19, doença provocada pelo vírus SARS-CoV- 2 que obrigou estudantes/pesquisadores de todo mundo a reorganizarem suas rotas de pesquisa. Por fim, agradeço a todas as pessoas queridas que seguraram minhas mãos nas horas mais difíceis e a minha família por me ensinar a descansar ao invés de desistir. Minha hora foi feita e, ao chegar, dou-me conta de que, caso queira honrá-la, este texto, que agora começa, é um texto bem difícil. Já que demanda que me dobre, não apenas sobre o trabalho de pesquisa, como também sobre mim mesma. Que pense sobre tais dobras e encontre formas e forças de linguagem adequadas para descrevê-las, de maneira tal que outros possam ter uma razoável visão de seus territórios, linhas, operações, arranjos, dispositivos, agenciamentos, processos, redobras. Para quê? Ora, minimamente para que, ao modo de Nietzsche, essa escrita funcione como uma flecha, que um pensador atira, assim como no vazio, para que outro a recolha e possa, por sua vez, também enviar a sua, agora em outra direção. (Sandra Mara Corazza). RESUMO Essa dissertação descreve como o movimento latino-americano denominado Ginecologia Natural tem atuado no Brasil através de terapeutas holísticas que divulgam os princípios desse movimento, especialmente nos ambientes online, por meio de diferentes redes sociais. As principais diretrizes da Ginecologia Natural são promover autoconhecimento e autonomia das mulheres com relação aos seus cuidados ginecológicos. Ao questionarem a Medicalização dos eventos fisiológicos dos corpos femininos materializada por discursos e práticas da Biomedicina, as praticantes da Ginecologia Natural resgatam saberes e práticas de cura consideradas ancestrais, pautadas sobretudo no uso de plantas medicinais. Ao mesmo tempo que promovem importantes reflexões sobre o poder patriarcal e Biomédico que ainda se impõe sobre as mulheres, acabam por reproduzir discursos essencialistas de gênero. Porém, como esse movimento se apresenta nas redes sociais onde diferentes segmentos da sociedade podem acompanhá-lo, tem acontecido tensionamentos por parte de pessoas transexuais oportunizando que a GN reveja algumas de suas perspectivas essencialistas. Além disso, a Ginecologia Natural busca estabelecer uma relação com o Reino Vegetal que valoriza as agências das plantas, possibilitando refletir sobre as relações dos humanos com outros não humanos, demonstrando, assim, que a realidade é mais-que-humana. PALAVRAS CHAVE: Ginecologia Natural, Corpo, Medicalização do Corpo Feminino, Gênero, Agência do Reino Vegetal. ABSTRACT This dissertation describes how latin-american movement called Natural Gynecology acts in Brazil through holistics therapists spread the principles of movement through various social medias. Natural Gynecology’s main guidelines are: promote women’s self-knowledge and women’s autonomy with regard to gynecological care. Problematizing “medicalization” of female body’s physiological events, embodied by discourses and practices of biomedicine, practitioners of Natural Gynecology rescue knowledges and so-called ancestral healing practices, mainly guided by medical plants. Nevertheless, while promoting important reflections on patriarchal and biomedical power, they still sustaining gender essensialist discourse. However, since the movement acts on social media, where varied social segments can follow it, transsexuals people stress the debate, leading Natural Gynecology to reconsider some essencialists perspectives. Furthermore, Natural Gynecology seeks to establish a relationship with the Plant Kingdom that values the agencies of plants, making it possible to reflect on the relationships of humans with other non-humans, thus demonstrating that reality is more-than-human. KEYWORDS: Natural Gynecology; Body; Female Body’s Medicalization; Gender; Plant Kingdom’s agency. LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Capa do Manual de Introdução à Ginecologia Natural. ....................................................... 46 Figura 2 - Timeline do Instagram @ginecologianatural. ...................................................................... 47 Figura 3 - Banco para Vaporização do útero. ...................................................................................... 146 Figura 4 - Cadeira para Vaporização do útero. ................................................................................... 146 Figura 5 - Chás .................................................................................................................................... 148 Figura 6 - Banho de Assento ............................................................................................................... 149 Figura 7 - Moxaterapia: Técnica Chinesa. .......................................................................................... 150 Figura 8 - Moxaterapia: Técnica Japonesa. ......................................................................................... 151 Figura 9 - Plantar a Lua. ...................................................................................................................... 157 Figura 10 - Coletor Menstrual. ............................................................................................................ 158 Figura 11 - Absorvente de Pano. ......................................................................................................... 158 Figura 12 - Sálvia (Salvia officinalis) ................................................................................................. 199 Figura 13 - Gerânio (Pelargonium graveolens) ................................................................................... 200 Figura 14 - Melissa (Melissa officinalis) ............................................................................................ 200 Figura 15- Mil em Rama (Achillea millefolium) ................................................................................ 201 Figura 16 - Melaleuca (Melaleuca alternifólia) ................................................................................... 202 Figura 17 - Barbatimão (Stryphnodendron adstringens) ..................................................................... 202 Figura 18 - Amora (Morus alba) ......................................................................................................... 203 Figura 19 - Amora (Morus nigra) ........................................................................................................ 203 Figura 20 - Artemísia (Artemisia vulgaris) ......................................................................................... 204 SUMÁRIO INTRODUÇÃO: CONSTRUINDO UMA “ETNOGRAFIA EM TEMPOS DE PANDEMIA” ..........................................................................................................................12 CAPÍTULO 1 – CONTRIBUIÇÕES PARA A CONSTRUÇÃO DE UM OLHAR TEÓRICO SOBRE O OBJETO DE ESTUDO....................................................................21 1.1 Prólogo: olhares socioantropológicos sobre o corpo............................................................21 1.2 Corpo e Medicalização em Michel Foucault........................................................................26 1.3 Do Natural ao Sintético: Os Hormônios Sexuais como Dispositivos Medicalizantes..........30 CAPÍTULO 2 – O QUE PODE O SANGUE? AS MULHERES E O FEMININO NA GINECOLOGIA NATURAL.................................................................................................43 2.1 “Bem-vindas Mulheres Medicina!” ....................................................................................43 2.2 TPM = Tensão Pré-menstrual versus TPM = “Tempo para Mim” ....................................54 2.3 Pílula Anticoncepcional: Regulação, Simulação e Supressão..............................................60 2.4 Ginecologia Natural para Todes?........................................................................................74 CAPÍTULO 3 – SOBRE DEUSAS, BRUXAS E PHARMAKONS....................................89 CAPÍTULO 4 – REFLOR-&-SER.......................................................................................113 4.1 Prólogo: “Já ouviu suas plantas hoje?” .............................................................................113 4.2 Plantas medicinais em uma formação de Ginecologia Natural.........................................118 4.3 Algumas práticas terapêuticas empregadas na Ginecologia Natural.................................141 4.4 Mulheres, Plantas e Lua....................................................................................................149 4.5 Plante sua Lua!...................................................................................................................153 CAPÍTULO 5 –A GINECOLOGIA NATURAL COMO LOCUS DE PERCEPÇÃO DA AGÊNCIA DO REINO VEGETAL....................................................................................157 CONSIDERAÇÕES FINAIS...............................................................................................171 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...............................................................................177 APÊNDICE A.......................................................................................................................197 14 INTRODUÇÃO: CONSTRUINDO UMA “ETNOGRAFIA EM TEMPO DE PANDEMIA ISOLAMENTO SOCIAL” Relatar a trajetória de construção de um objeto de pesquisa é perceber que assim como a vida, a pesquisa é resultado da mistura de elementos diversos que estão em constante movimento e podem mudar de direção. As direções, nesse caso, mudaram por que o Brasil, como vários lugares do mundo, foi atingido por uma Pandemia de COVID- 19, uma doença provocada pelo vírus SARS-CoV-2 ou o Coronavírus da Síndrome Respiratória Aguda Grave 2. Esse é um novo tipo de Coronavírus que tem alto poder de contágio podendo levar à morte, principalmente pessoas idosas e pessoas com comorbidades físicas. O contágio pode acontecer por meio de gotículas de saliva, tosses, muco pulmonar ou nasal, espirro e contato de mãos contaminadas por pessoas infectadas. Num cenário onde ainda não haviam vacinas1 para conter a transmissão do vírus e a propagação da doença, uma das medidas adotadas por gestores públicos de todo o mundo foi o isolamento social. Tal medida inviabilizou a realização completa do campo proposto no primeiro projeto2 que tinha como objetivo seguir e descrever a rede de produção de conhecimentos em práticas de cura a partir de plantas medicinais e medicamentos Fitoterápicos no município de Vitória, no Estado do Espírito Santo. Apesar da impossibilidade de percorrer esta rede, foi justamente a entrada em um dos pontos que a compõe, a Pastoral da Saúde da Paróquia São José, localizada no bairro Maruípe - onde são produzidos remédios à base de plantas medicinais e disponibilizados para a população a preços acessíveis - que obtive os primeiros elementos para formulação dessa dissertação. Quando precisei mudar a rota da pesquisa devido ao isolamento social, busquei no meu diário de campo elementos para pensar uma nova estratégia. Revi um ponto fundamental da entrevista realizada com Dona Graça, coordenadora da produção de remédios da Paróquia São José. Perguntei a ela qual produto tinha mais procura e a resposta foi tintura de Amora (Morus nigra), indicada para minimizar os sintomas da menopausa. Após essa descoberta, resolvi pesquisar mais sobre o uso de plantas 1A primeira pessoa vacinada no Brasil foi a enfermeira Mônica Calazans em 17 de janeiro de 2021. Ver em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-55699131 Acesso em: 08 de fevereiro de 2021. 2 Tal projeto foi desenhado a partir da perspectiva da “Antropologia Simétrica” e da “Teoria do Ator-Rede” propostas pelo antropólogo francês Bruno Latour em duas obras principais: “Jamais Fomos Modernos: Ensaio de Antropologia Simétrica” (1994) e “Reagregando o Social: Uma introdução à Teoria do Ator- Rede” (2012). https://www.bbc.com/portuguese/brasil-55699131 15 medicinais para tratar os sintomas da menopausa e encontrei uma matéria publicada na revista eletrônica da Folha de São Paulo, intitulada: “Organizações de mulheres lutam pela adoção da ‘medicina doce’", que abordava a batalha de mulheres pelo que elas consideram uma excessiva medicalização da saúde feminina, sobretudo no período do climatério/menopausa. A questão central do debate é que a reposição hormonal sintética deveria ser prescrita apenas para os casos que realmente necessitem, o que, de acordo com a matéria, seria de cerca de 25%. “Os que são contrários à reposição clássica afirmam que a maioria das mulheres resolvem seus problemas com chás e suplementos extraídos de plantas, especialmente aquelas que contêm estrogênio”. (BIANCARELLI, 2001). Após ler a matéria, pensei ter encontrado meu novo objeto, mas ao pesquisar sobre a relação entre as mulheres e o uso de plantas medicinais nos cuidados ginecológicos me deparei com o movimento da Ginecologia Natural (GN). A GN, também conhecida como Ginecologia Natural e Autônoma (GNA), não é uma especialidade médica regulamentada pela Medicina científica, mas um conjunto de práticas empregadas por grupos de mulheres que tem como objetivo promover autoconhecimento e autonomia sobre seus corpos e sua saúde, combatendo o fenômeno da medicalização que patologiza processos fisiológicos naturais dos corpos femininos, mais especificamente a mesntruação e a menopausa. O principal pilar de sustentação dessas práticas são os conhecimentos ancestrais de cuidados ginecológicos que utilizam elementos da natureza como as plantas medicinais e os ciclos lunares para acompanhar os processos fisiológicos do corpo, compreendendo suas dimensões biopsicossociais3. A GN evoca o debate sobre a disputa entre saberes científicos e saberes considerados tradicionais, bem como a reflexão sobre os discursos da Medicina científica que, através das especialidades da Ginecologia e da Obstetrícia, são responsáveis por estudos clínicos, protocolos, tratamentos e procedimentos que aumentam não só os conhecimentos biomédicos, mas também o controle e o poder sobre corpos femininos. (SALA, 2019; LIMA, 2019). Nesse sentido, a GN vem trabalhando na difusão de práticas pautadas numa concepção holística do corpo, numa terapêutica que evita os medicamentos alopáticos químicos-sintéticos, e na construção de um cotidiano de mais respeito e proximidade à natureza, pensada fundamentalmente a partir das plantas. Para 3 Que abrange as dimensões física, psicológica e social. 16 tanto, investe também na promoção de novas práticas alinhadas com os discursos ambientais de preservação ambiental e diminuição do consumo como, por exemplo, o uso de absorventes de pano e coletores menstruais, que substituem os absorventes descartáveis. Mas como esse movimento surgiu? De acordo com Sala (2019), a GN é um movimento sociocultural e político que se desenvolveu na América Latina na primeira década do século XXI, tendo como mola propulsora o projeto Ginecosofía. Sabiduría Ancestral de las Mujeres, iniciado por volta de 2008 pela socióloga e parteira tradicional chilena Pabla Pérez San Martín. Ao pesquisar sobre violência obstétrica, San Martín se deparou com um cenário de medicalização e sujeição do corpo feminino que a impulsionou a trabalhar pela reivindicação de mais autonomia para as mulheres no momento do parto. Em busca de materiais que pudessem auxiliar na construção dessa autonomia, a pesquisadora iniciou uma jornada de viagens pela América Latina procurando compreender a medicina dos povos tradicionais e os saberes ancestrais empregados por parteiras e curandeiras nos cuidados ginecológicos das mulheres. Após iniciada a jornada, o projeto resultou na publicação do fanzine Manual Introductorio a la Ginecología Natural no ano de 2009 - chegando ao formato de livro em 2015 e edição em português em 2019, a partir de um financiamento coletivo - e na compilação Del cuerpo a las raíces. Uso de plantas medicinales para la salud sexual y reproductive de las mujeres, em coautoria com Inés Cheuquelaf e Carla Cerpa em 2011. Essas publicações fomentaram os principais alicerces desse movimento. O projeto “Ginecosofia” - termo inventado que significa “sabedoria da mulher” - tem investido na integração das mulheres latino-americanas através da troca de seus saberes ancestrais, tradicionais e culturais. Atualmente, o projeto atua por toda América Latina e tem base na Argentina, no Brasil e no Chile. No Brasil, foi criado um braço editorial que conta com algumas publicações traduzidas para o português, sendo elas: “Manual de Introdução à Ginecologia Natural” e “Calendário Serpente Lunar”, que é uma ferramenta lançada anualmente para auxiliar na gestão da fertilidade feminina. Os produtos podem ser adquiridos pelo sítio eletrônico https://www.ginecosofiabrasil.com.br/ ou através dos pontos de distribuição também informados no mesmo (até o momento são 33 pontos distribuídos nos estados do AC, BA, CE, MG, MT, PE, PR, RJ, RN, RO, RS, SE, SP). O objetivo é que a distribuição do material seja realizada por espaços e pessoas que trabalham com a saúde da mulher, criando redes de economia solidária e inclusiva. https://www.ginecosofiabrasil.com.br/ 17 Toda nossa distribuição é feita de forma independente, você não vai encontrar nossos livros em grandes livrarias, mas sim em livrarias de bairro, espaços que trabalham a saúde da mulher, através das mãos de terapeutas e trabalhadores autônomos. Para nós é muito importante que nossos produtos circulem de uma forma que seja coerente com o que propomos enquanto projeto, e que movimentem uma economia mais solidária e inclusiva. Estamos constantemente pensando novas formas para que nossas publicações cheguem a mais pessoas e para que seja cada vez mais acessível. E nesse sentido queremos ampliar cada vez mais a nossa rede. (GINECOSOFIABRASIL, 2019?). Esse movimento inspirou outros trabalhos textuais (manuais e fanzines) sobre a GN em diferentes países da América Latina. Sala (2019) efetuou o levantamento dos textos que circularam nos últimos anos, elaborando uma análise inédita da produção discursiva contida nos mesmos. Tais textos foram escritos e divulgados de maneira independente por suas idealizadoras, sendo eles: 1. Ginecología Natural al alcance de todas (2014), da argentina Liliana Pogliani; 2. O já mencionado Manual Introductorio a la Ginecología Natural (2015), da chilena Pabla Pérez San Martín; 3. O fanzine peruano de escrita coletiva Cuerpxs menstruantes (2015); 4. O fanzine colombiano Autocuidado y sanación feminista para ingobernables (2016), também de escrita coletiva; 5. Manual de Ginecologia Natural e Autônoma (2017), das brasileiras Lais Souza, Jaqueline de Almeida, Luma Flôres e Máira Coelho; 6. Mujer soberana. Ginecología Natural y Autogestiva (2018), da argentina Yamila Florencia Setti. Alguns desses textos foram produzidos no formato físico e também disponibilizados em plataformas digitais, enquanto outros somente nas plataformas digitais, demonstrando a importância da internet na propagação da GN. Este dispositivo, de hecho, ha sido fundamental para tener acceso y poder descargar los siguientes ejemplos: el Manual de Ginecologia Natural & Autônoma (2017), de las brasileñas Lais Souza, Jaqueline de Almeida, Máira Coelho y Luma Flôres; y los fanzines de escritura colectiva Cuerpxs menstruantes (2015) y Autocuidado y sanación feminista para ingobernables (2016), de Perú y Colombia, respectivamente. (SALA, 2019, p. 62). Onze anos depois de publicada a primeira versão do Manual Introductorio a la Ginecología Natural no formato de fanzine, os discursos da GN ganham cada vez mais adeptas no Brasil, que são instruídas por formadoras denominadas de terapeutas em ginecologia natural. Estas, por sua vez, têm utilizado diferentes plataformas digitais como 18 sites, blogs e redes sociais para acessarem mais e mais pessoas e divulgarem o que consideram ser os princípios da GN. Nesse sentido, ofertam formações presenciais e remotas, individuais ou em grupos, gratuitas ou pagas, variando a quantidade e o aprofundamento dos conteúdos. O estudo feito por Lima (2019) observa que: Nas publicações, eventos e cursos, que se propagam em grupos de mulheres e no boca a boca, compartilham novas práticas de cuidado, que afirmam ter como foco o bem estar, o equilíbrio do corpo e a harmonia com a natureza, divulgando abordagens alternativas de cuidar de si mesmas, ampliando o conhecimento sobre seu corpo e sua saúde. (LIMA, 2019, p.2). Após ter encontrado a GN chegara, a hora de redesenhar as ferramentas e a metodologia de pesquisa para que as mesmas entrassem em consonância com as orientações de isolamento social, sem deixar de abarcar com profundidade o fenômeno pesquisado. Logo, se no percurso realizado até aqui a internet e as ferramentas de interação online não foram cogitadas como uma das fontes primárias de dados e espaço para a realização do campo, diante do novo contexto apresentaram-se como possível alternativa. Além disso, à medida que fomos esmiuçando o objeto de pesquisa, observamos que ele tem ocupado cada vez mais o ambiente digital (online) e, através das redes sociais, terapeutas e praticantes da GN desenvolvem interações onde é possível observar os discursos, as vivências, as práticas, as trocas de experiências e os tensionamentos que vêm construindo as matérias-discursivas desse movimento. Outro ponto importante é que, durante o período de isolamento social, atividades como cursos, formações e workshops foram transferidas exclusivamente para o ambiente online. Isso posto, buscamos elementos para auxiliar a construção de uma etnografia em tempos de pandemia e isolamento social, onde a sociabilidade online do grupo estudado foi intensificada. Assim, partimos da abordagem sobre antropologia digital desenvolvida por Miller et al. (2016), na qual os ambientes de interação online não são vistos como separados da vida, mas parte integrante das novas sociabilidades viabilizadas pelos avanços da tecnologia digital informacional. Nesse sentido, os autores sugerem que os ambientes online e as redes sociais não são apenas ferramentas de comunicação, mas parte integrante da formação sociocultural de inúmeros grupos em diferentes localidades do mundo. Além disso, um trabalho que visa descrever como uma determinada plataforma é utilizada precisa ter em mente que o que se alcança são as perspectivas locais de um determinado grupo e não a descrição geral de uma rede ou mídia social. 19 Outro ponto importante sobre a etnografia que usa os meios digitais e as redes sociais é: mais do que a plataforma em si, é preciso pensar o conteúdo que é publicado nela. Para Miller et al. (2016), as plataformas e as mídias digitais devem ser entendidas a partir do conceito de polymedia, desenvolvido por ele em pareceria com Mirca Madianou, professora de Mídia e Comunicação da Universidade de Londres. Madianou e Miller (2012) reconhecem que existe uma gama diferente de recursos oferecidos pelas plataformas, mídias e redes sociais de forma que elas podem ser vistas umas em relação as outras, possibilitando compreender por que uma pessoa ou grupo escolhe uma determinada plataforma e não outra. A teoria da polymedia pressupõe que cada usuário tem acesso a uma variedade de mídias às quais podem se conectar sem muitas restrições. Existem alguns fatores restritivos — como possibilidade de acesso à plataforma, custo e literacia midiática (familiaridade com a linguagem e capacidade de uso e interação na mídia) — que podem determinar seu uso e escolha. Quando tais fatores passam para um segundo plano, o foco da polymedia se afasta das restrições das plataformas para olhar para as intenções por trás de cada uso (Madianou, 2014). (VARELLA; MACHADO, 2021, p.16). Outro aspecto observado por Miller et al. (2016) é que plataformas de mídias socias são frequentemente substituídas, como aconteceu com Orkut e MySpace. Outras, como Facebook e Instagram, estão sendo constantemente remodeladas. Existe, portanto, um cenário dinâmico que requer que as abordagens dos pesquisadores também o sejam e, assim, consigam acompanhar como as sociabilidades são holísticas, de forma que o online se desdobra no offline e vice-versa. Por fim, outra contribuição trazida para ajudar a pensar os percursos etnográficos dentro de uma paisagem online em tempos de isolamento social foi o vídeo publicado por Miller em 03 de maio de 2020 em seu canal no YouTube. O vídeo de Miller (2020) é simples e objetivo, mas também muito perspicaz justamente porque o cerne de sua reflexão reside no fato de que o engajamento necessário para realizar uma etnografia online é o mesmo que para realizar uma etnografia offline. “Portanto, assim como existem muitos contextos offline com os quais você pode trabalhar, também quero afirmar que há diversificados contextos online e a experiência em cada um será verdadeiramente diferente”. (MILLER, 2020, p.3). O que Miller (2020) pretende é nos reavivar para o fato de que em qualquer um dos contextos, online ou offline, teremos facilidades e dificuldades: o que precisamos é estar devidamente envolvidos para descrevermos o funcionamento da população e/ou grupo que observamos e, sobretudo, 20 estarmos conscientes de que a metodologia de pesquisa se dá de fato no processo. Por mais horas que possamos passar formulando e delineando nossos caminhos, na maioria dos casos esse caminho vai mudar. “A razão é que, para nós, o método também é algo que você aprende no curso da etnografia. Na verdade, tudo se baseia na sensibilidade, na compreensão de como uma população em particular funciona”. (MILLER, 2020, p.3). O campo, portanto, é que nos revela os caminhos por onde podemos percorrer para apreender as agências e formas de sociabilidade do grupo em questão. Miller (2020) reforça ainda que, por excelência, o método da pesquisa antropológica e da etnografia é a observação participante. Então, mesmo que muitos possam dizer que num contexto online não é preciso participar, bastando focar em realizar o máximo de entrevistas, ele sugere exatamente o contrário. Ou seja, Miller (2020) defende que nos concentremos ainda mais na observação participante para conseguirmos nos integrar nas dinâmicas de socialização do grupo em que estamos nos inserindo. Assim, o engajamento para realizar uma etnografia online deve ser o mesmo que o empregado quando estamos offline. Para não perder de vista o engajamento do qual nos fala Miller (2020), faz-se importante recobrar algumas interpretações do que seja etnografia. Para Peirano (2008), ela não se reduz apenas a um método de pesquisa, mas é a própria teoria vivida. “Uma referência teórica não apenas informa a pesquisa, mas é o par inseparável da etnografia. É o diálogo íntimo entre ambas, teoria e etnografia, que cria as condições indispensáveis para a renovação e sofisticação da disciplina - a ‘eterna juventude’ de que falou Weber”. (PEIRANO, 2008, p.3). Ao refletir sobre a produção etnográfica como um método de investigação que viabiliza a apreensão da complexidade da vida social, Strathern (2014) apresenta o que considera o “Momento Etnográfico”, ou seja, um momento de imersão complexa que ocorre sempre em dois lugares, no “campo” e no “gabinete”. Ao mesmo tempo em que o pesquisador está imbuído de seus referenciais teóricos, quando chega em campo precisa estar aberto para a observação do fluxo dos acontecimentos e registrá-los, depois retornar para sua estação de trabalho e mergulhar na escrita que se configurará como um segundo campo. Para a autora, esses campos se tocam parcialmente, mas não se abrangem totalmente, o que também permite que cada campo ofereça uma perspectiva sobre o outro: O(a) pesquisador(a) de campo tem de administrar, e, portanto, habitar os dois campos ao mesmo tempo: recordar as condições teóricas sob as 21 quais a pesquisa foi proposta, e com isso a razão de estar ali, cedendo ao mesmo tempo ao fluxo de eventos e às ideias que se apresentam. "Voltar do campo" significa inverter essas orientações. (STRATHERN, 2014, p. 346-347). A amálgama do que foi analisado no momento da observação em campo com o que foi observado no momento da análise dos dados, alocando ainda a reflexão teórica, será feita pela escrita. Esse processo permite uma construção analítica que resultará na etnografia. Não se trata de qualquer escrita, mas de uma escrita criativa que consiga captar dentre os inúmeros registros o que será relevante para os interlocutores a quem se endereça. Portanto, todo registro se faz importante para o processo dialógico entre os campos, inclusive a imprevisibilidade, já que mudanças imprevisíveis podem promover bons resultados ao serem remontadas pelo pesquisador. “O investigador não conhece de saída toda a série de fatores relevantes na análise final, nem, de fato, toda a série de análises relevantes para a compreensão do material que já ocupa suas notas e textos”. (STRATHERN, 2014, p. 349). Isso significa que o “Momento Etnográfico” é constituído de imersão e movimento, ou seja, como na música, é um compasso de batidas e pausas entre as informações coletadas, o retorno às mesmas, do ponto de vista intelectual, e os novos questionamentos que serão produzidos sobre o que não se percebeu incialmente. O objetivo é tornar inteligíveis, para nós mesmos, outros modelos de sistemas complexos, ou seja, outras formas de organização da vida social. Busca-se sair do terreno fácil da atribuição das nossas categorias às categorias dos outros. Dessa forma, a autora propõe que a Antropologia esteja constantemente repensando a forma como apreende os grupos que se propõe observar e, sobretudo, a si mesma. Tendo em mente as referências acima, e compreendendo que o caminho da pesquisa se revela no próprio caminhar, tivemos como ponto de partida o trabalho de Lima (2019), que realizou um mapeamento dos espaços online por onde a GN circula. Para tanto, a autora utilizou como principais marcadores os termos “Ginecologia Natural”, “Ginecologia Autônoma”, “Sagrado Feminino” e “Vaporização do Útero”. Para o marcador Ginecologia Natural no Google foram encontrados “144 mil resultados, sendo o primeiro o blog da ginecologista e terapeuta em GN Bel Saide e o quarto a sua página no Facebook. Os demais links encaminhavam para reportagens sobre o tema. Na mesma busca é possível visualizar mais de uma centena de imagens”. (LIMA, 2019, p.10). A autora realizou ainda a busca de perfis no Instagram e grupos no Facebook tendo 22 encontrado o total de 17 perfis para o primeiro e 11 grupos públicos e 59 grupos fechados para este último. A partir da pesquisa, apresentou-se uma série de sites, blogs e produções não acadêmicas no Google®, perfis no Instagram®, canais do YouTube®, grupos, coletivos, reuniões, rodas de conversa, aulas, cursos, retiros, vivências e rituais que não param de surgir e que vão desde encontros curtos, de cerca de 1 hora e gratuitos, a cursos com mais de 100 horas de duração e que podem ter custo de 800 a 3000 reais, além de outros ofertados por facilitadoras estrangeiras que podem ultrapassar esse valor. (LIMA, 2019, p.09). Devido à grande extensão e capilaridade de pessoas e grupos abordando a GN na internet, foi feito um recorte com 4 terapeutas/ginecologistas naturais4 que divulgam seus trabalhos em mais de uma rede social (Facebook, Google, Instagram, YouTube), objetivando observar como cada uma delas abordam, compreendem e divulgam a GN. Importante ressaltar que, apesar de utilizarem todas essas redes, percebemos que as postagens feitas a partir do ano de 2019 pelas terapeutas que acompanhamos teve como preferência a rede social Instagram. As postagens feitas nessa rede foram replicadas nas demais. Acreditamos que isso ocorra devido a popularização do Linktree, um serviço que permite condensar e divulgar todos os links de um perfil ou site em um mesmo lugar. Assim, a pessoa ou página pode disponibilizar um link onde pode promover suas contas em outras redes sociais, entrevistas, produtos de comercialização entre outros. (CARDOSO, 2020). Com o objetivo de aprofundar a observação participante, foi realizado um dos cursos de formação online que estava com vaga disponível. A partir desse acesso, percebemos, dentre tantas outras coisas que serão descritas ao longo do trabalho, que a formação no ambiente online se configura como veículo onde os discursos da GN podem ser acessados e debatidos por grupos de pessoas que, mesmo distantes geograficamente, se conectam e agem posteriormente como disseminadoras desses discursos em ambientes online (nas suas próprias páginas e perfis) e offline (trocando com familiares e amigas). Por fim, também trouxemos as perspectivas contidas em três das seis produções consideradas por Sala (2019) como disseminadoras da GN na América Latina e que 4 Ginecologia Natural por Bel Saide https://ginecologianatural.com.br/ ; 2. Saberes da Mãe Terra por Anna Sazanoff https://saberesdamaeterra.com.br/; 3. Curandeiras de Si por Carolina Lana https://www.curandeirasdesi.com.br/ e 4. MariaChantal por Maria Chantal https://www.mariachantal.com.br/ https://ginecologianatural.com.br/ https://saberesdamaeterra.com.br/ https://www.curandeirasdesi.com.br/ https://www.mariachantal.com.br/ 23 circulam no ambiente online e estão disponibilizadas de forma gratuitas, são elas: Manual Introductorio a la Ginecología Natural (2009, 2019); Cuerpxs menstruantes (2015) e Manual de Ginecologia Natural e Autônoma (2017). No mais temos em conta que: A pesquisa online sempre é multimídia, então, entre os dados arquivados há livros online, textos em pdf, revistas digitais, vídeos, entrevistas de jornais versão online, fotos; entre o material físico, livros e textos, os quais devem ser sintetizados, nomeados e separados em mais arquivos. Desta maneira, o computador passou a ser o campo, o arquivo, instrumento de produção e armazenamento do conhecimento. (FERRAZ; ALVES, 2017, p. 23). O percurso dessa pesquisa será descrito em cinco capítulos. O primeiro está centrado em situar algumas dimensões socioantropológicas sobre o corpo nas ciências sociais, até a ilustração de projetos de medicalização do corpo feminino. O segundo apresenta as principais perspectivas abarcadas sobre as mulheres e o feminino na GN. O terceiro capítulo aborda alguns dispositivos de resistência das mulheres em relação ao patriarcado e à medicalização utilizados pela GN. No quarto capítulo, descrevemos as práticas terapêuticas baseadas em saberes considerados ancestrais a partir de plantas medicinais e como esses saberes são entendidos dentro da GN. No quinto e último capítulo, refletimos sobre as agências das plantas medicinais e as possibilidades de pensar as relações entre humanos e não humanos dentro da perspectiva de que a realidade social é mais - que-humana. Observamos ainda que as categorias êmicas do grupo estudado estão destacadas no texto a partir da escrita itálica e sublinhada e ao final consta um apêndice com informações sobre o cultivo das plantas estudadas no curso de Ginecologia Natural. CAPÍTULO 1 – CONTRIBUIÇÕES PARA A CONSTRUÇÃO DE UM OLHAR TEÓRICO SOBRE O OBJETO DE ESTUDO. 1.1. Olhares Socioantropológicos sobre o Corpo. Os tratamentos ginecológicos são um conjunto de terapias empregadas parar cuidar e tratar o aparelho reprodutor e as mamas dos corpos femininos, ou seja, são um conjunto de práticas que se incidem sobre o corpo. Nesse sentido, precisamos ter em mente que o 24 corpo não se resume a sua dimensão biológica; tal percepção fez com que durante muito tempo o corpo permanecesse como objeto ou inexistente, ou de ordem secundária para as Ciências Sociais. Mas, em 17 de maio de 1934 o sociólogo e antropólogo francês Marcel Mauss apresentou na Société de Psychologie o tema das técnicas corporais e em 1936 publicou pela primeira vez no Journal de Psychologie: “Les techniques du corps”, ou “As técnicas do corpo”. (ROSA, 2019). Esse texto se tornou um marco de extrema relevância dentro das Ciências Sociais e Humanas pois atravessa a perspectiva puramente biológica que a modernidade cunhou sobre o corpo. Mauss (2003) pesquisou como as técnicas corporais variam entre as sociedades e as culturas definindo-as como a maneira pela qual em todas as sociedades humanas e de forma tradicional, os seres humanos sabem utilizar seus corpos e conclui que: “O corpo é o primeiro e o mais natural instrumento do homem. Ou, mais exatamente, sem falar de instrumento: o primeiro e o mais natural objeto técnico, e ao mesmo tempo meio técnico, do homem, é seu corpo”. (MAUSS, 2003, p.407). O que Mauss (2003) observa é que mesmo os nossos comportamentos mais cotidianos, aqueles que nos parecem mais naturais como a forma que comemos, corremos, caminhamos e nadamos são técnicas adquiridas pelos indivíduos no processo de socialização dentro de cada sociedade e cultura. Tais técnicas não são fixas e podem mudar no decorrer dos processos sociais. Partindo dessa perspectiva o autor montou um quadro de observação originando-se das mudanças que pôde presenciar nas técnicas do nado no período de sua geração, e, identificou que há uma técnica da prática e uma técnica da educação dessa prática, portanto, conclui que em toda prática está incutido um processo de aprendizagem. Já durante a sua atuação como oficial-intérprete na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), Mauss (2003) observou como as formas de marchar e as técnicas de cavar dos soldados diferem de um exército para outro. Percebendo, por exemplo, que as tropas inglesas não sabiam manusear as pás francesas com a mesma destreza dos franceses demandando assim mais tempo para realização dos serviços, constatou que a habilidade manual só se aprende lentamente e que “toda técnica propriamente dita tem sua forma. Mas o mesmo vale para toda atitude do corpo”. (MAUSS, 2003, p. 403). Por conseguinte, observa que as formas de andar também variam em diferentes sociedades e culturas, a posição dos braços, das mãos, a cadência. Assim, esse autor analisa a influência do cinema americano na forma de andar das mulheres francesas, a maneira como a freiras mantém as mãos fechadas enquanto andam, a 25 cadência e o balançar dos quadris5 das mulheres maoris. Toda essa organização corporal não é somente o reflexo de particularidades individuais, mas uma idiossincrasia social que abarca a tríplice relação entre o biológico, o sociológico e o psicológico. Outro ponto importante é que para além da influência da educação existe a imitação de atos que podem ser iniciados desde o período da infância onde o indivíduo acaba por assimilar os movimentos executados diante dele, sendo que a admiração e o prestígio influenciam na imitação. “É precisamente nessa noção de prestígio da pessoa que faz o ato ordenado, autorizado, provado, em relação ao indivíduo imitador, que se verifica todo o elemento social. No ato imitador que se segue, verificam- se o elemento psicológico e o elemento biológico”. (MAUUS, 2003, p.405). Essa dimensão se impõe também na percepção das forças mágicas ritualizadas e na eficácia das mesmas. “Ato técnico, ato físico, ato mágico-religioso confundem-se para o agente” (MAUSS, 2003, p. 407). A técnica é então definida por Mauss (2003) como um ato tradicional eficaz, e o que viabiliza uma técnica é a tradição justamente por que a mesma viabiliza também sua transmissão. Então para Mauss (2003) não pode haver técnica e transmissão se não houver tradição, e antes de existir uma interação dos indivíduos com as técnicas dos instrumentos existe o conjunto das técnicas do corpo que são montadas de acordo com a educação que recebeu e do lugar que o indivíduo ocupa dentro da sociedade e cultura da qual faz parte. Reconhecemos à primeira vista um religioso muçulmano: mesmo quando tem um garfo e uma faca (o que é raro), ele fará o impossível para servir-se apenas de sua mão direita. Ele jamais deve tocar o alimento com a esquerda e certas partes do corpo com a direita. Para saber por que ele não faz determinado gesto e faz outro, não bastam nem fisiologia nem psicologia da dissimetria motora no homem, é preciso conhecer as tradições que impõem isso. (MAUSS, 2003, p.411) Em relação aos princípios de classificação das técnicas do corpo Mauss (2003) destaca em um primeiro momento que essas podem ser percebidas de acordo com o sexo, variar de acordo com a idade, com o rendimento (resultado de um adestramento, ou seja, a destreza e a habilidade frente a uma adaptação de movimentos bem coordenados a objetivos) e com as diferentes formas de transmissão (educação, imitação). Outra 5 Denominado anioni, e ensinado pelas mães às suas filhas. (MAUSS, 2003). 26 perspectiva está na abordagem diacrônica do ser humano, para tanto o autor vai separar as técnicas corporais de acordo com as diferentes fases da vida de um indivíduo em sociedade. Esse breve inventário realizado por Mauss (2003) abriu as portas das Ciências Sociais para esses novos estudos e tanto a Sociologia como a Antropologia passaram a considerar o corpo como um “objeto" legítimo. Posteriormente os estudos sobre corpo e corporeidade6 se mostraram extremamente relevantes para a Sociologia e Antropologia da Saúde7uma vez que: “a enfermidade limita o funcionamento ‘normal’ do corpo, com profundas consequências sociais, políticas, econômicas e psicológicas, assim como o corpo é objeto das intervenções médicas”. (NETTLETON, 2003 apud CANESQUI, 2011, p. 321). As experiências do processo saúde-doença se incidem sobre o corpo, este por sua vez pode ser entendido como um dos elementos centrais nas reflexões acerca dos fenômenos sociais e culturais uma vez que, a vida é em primeira instância uma experiência com e através do corpo, porém tal experiência vai para além do biológico. O corpo também é o veículo pelo qual absorvemos e reproduzimos os contratos socioculturais e as dimensões simbólicas estabelecidas no ambiente em que vivemos. Para Le Breton (2007, p. 7), Os usos físicos do homem dependem de um conjunto de sistemas simbólicos. Do corpo nascem e se propagam as significações que fundamentam a existência individual e coletiva; ele é o eixo da relação com o mundo, o lugar e o tempo nos quais a existência toma forma através da fisionomia singular de um ator. Através do corpo, o homem apropria-se da substância de sua vida traduzindo-a para os outros, servindo-se dos sistemas simbólicos que compartilha com os membros da comunidade. Le Breton (2007) realiza um estado da arte que aborda os diferentes enfoques dados ao corpo e a corporeidade humana a partir de trabalhos situados nos campos das Humanidades e das Ciências Sociais. O autor aponta as ambiguidades dos discursos estando de um lado as concepções modernas pautadas em abordagens puramente anatomofisiológicas e por outro lado as concepções de uma corporeidade humana que se faz a partir dos elos com a natureza e com os cosmos, uma visão holística do corpo. Um exemplo bem interessante dessa segunda abordagem está no estudo realizado pelo etnólogo M. Leenhardt (1947, 1997) sobre os Canaques. Para essa sociedade “os órgãos 6 A compreensão de que o corpo carrega em si uma complexidade que está para além do material. 7 E/ou Sociologia e Antropologia Médica. 27 ou os ossos, tal qual nos parece, levam nomes de frutas, árvores, etc. Não existe ruptura entre a carne do mundo e a carne do homem. O vegetal e o orgânico se encontram em tamanha correspondência que alimenta inúmeros traços da sociedade Canaque”. (LE BRETON, 2007, p.27). Essas diferentes epistemologias resultam também em diferentes conhecimentos médicos e terapêuticos. A concepção moderna que separa o homem do seu corpo resultou na Biomedicina, já a concepção holística do corpo encontrada entre os povos tradicionais e diferentes comunidades não distingue os seres humanos de seu corpo e, portanto, resultam em conhecimentos médicos e terapêuticos onde os elementos da natureza fornecem energia e ligação com o cosmos, os seres humanos são harmonizados com a energia do meio ambiente através de vegetais, minerais e das forças invisíveis que se conectam ao visível. [...] esses saberes não distinguem homem e corpo, as medicinas populares ainda hoje dão exemplo em nossas sociedades. Medicina dos traços distintivos, na qual um elemento vegetal ou mineral pode supostamente ajudar a curar um mal, pois possui na forma, na cor, no funcionamento ou na substância, uma analogia com o órgão afetado ou as aparências da doença. Pela imposição das mãos o magnetizador transmite uma energia que regenera as zonas doentes e coloca o homem em harmonia com as emanações do meio ambiente. O radiestesista interroga o pêndulo e o faz percorrer a superfície do corpo para fazer o diagnóstico e identificar as plantas que indicará ao visitante para curá- lo. (LE BRETON, 2007, p.25) Assim como Mauss (2003), Le Breton (2007) aponta como o corpo é ao mesmo tempo emissor e receptor de informações produzindo sentidos continuamente e, sendo assim, não é moldado puramente pelo biológico, mas por toda a interação social. Tanto o corpo como a corporeidade são socialmente construídas e estão em ressonância com os processos que o cercam, variando de acordo com os imaginários e as representações que conduzem as diferentes culturas e sociedades. O corpo é socialmente construído, tanto nas suas ações sobre a cena coletiva quanto nas teorias que explicam seu funcionamento ou nas relações que mantém com o homem que encarna. A caracterização do corpo, longe de ser unanimidade nas sociedades Humanas, revela-se surpreendentemente difícil e suscita várias questões epistemológicas. O corpo é uma falsa evidência, não é um dado inequívoco, mas o efeito de uma elaboração social e cultural. (LE BRETON, 2007, p.26). 28 A revisão realizada por Le Breton aponta para a amplitude do universo de estudos que englobam o corpo dentro das ciências sociais. “O corpo é a interface entre o social e o individual, entre a natureza e a cultura, entre o fisiológico e o simbólico; por isso, a abordagem sociológica ou antropológica exige prudência particular e a necessidade de discernir com precisão a fronteira do objeto”. (LE BRETON, 2007, p.92). 1.2. O Corpo e a Medicalização da Vida em Michel Foucault. Um recorte analítico que parece abarcar as fronteiras do objeto aqui estudado sem desvencilha-lo do mundo que o circunda e o forma é a perspectiva de corpo e medicalização da vida empregada por Michel Foucault (1995, 1999a, 1999b, 2008, 2018). Mas, antes de adentramos na construção teórica desse autor é preciso termos em mente que ele é um intelectual que ancora seus pensamentos numa espécie de pedra angular, ou seja, o convite que ele se faz e por conseguinte nos faz de: questionar os estatutos de verdades ditas universais e as relações de poder construídas na Modernidade que por conseguinte moldam o sujeito moderno. O corpo pode ser entendido na obra de Foucault como um dos elementos centrais onde são exercidas forças que contribuem para a formação dos sujeitos o atingindo em seu cotidiano e penetrando naquilo que possui de mais concreto e íntimo, ou seja, o seu corpo. (SILVEIRA; FURLAN, 2003). O sujeito por sua vez é segundo o próprio autor o fundamento da sua análise. Foucault (1995) explica que existem dois entendimentos possíveis para a palavra sujeito, sendo: “sujeito a alguém pelo controle e dependência, e preso a sua própria identidade por uma consciência de autoconhecimento. Ambos sugerem uma forma de poder que subjuga e torna sujeito a”. (FOUCAULT apud DREYFUS; RABINOW, 1995, p.235). Nesse sentido o autor realiza uma investigação arquegenealógica dos processos históricos que constituíram o sujeito moderno e traça os pontos centrais de seu percurso metodológico que foram: 1. uma arqueologia das regras discursivas da formação do saber e 2. uma genealogia das relações entre o saber e o poder e suas ações sobre o corpo. “Com a primeira, Foucault investigou a posição e formação do sujeito do conhecimento, por meio das regras discursivas do saber; com a segunda, sua posição e formação, por meio das práticas sociais”. (SILVEIRA; FURLAN, 2003, p. 172). Ao realizar análises históricas sólidas sobre temas como a prisão, a loucura e a sexualidade, Foucault (1978, 1998,1999a, http://lattes.cnpq.br/4032075843318626 http://lattes.cnpq.br/4032075843318626 29 1999b, 2005a, 2005b), observa que a questão do poder está sempre atravessando a corporeidade dos indivíduos. O poder por sua vez não é algo que exista per si mas apenas através das relações, o poder só existe em ato, e em linhas gerais pode ser entendido como um modo de ação sobre as ações dos outros ou o governo dos homens uns pelos outros, nesse sentido o poder se torna extensivo à todas as relações sociais. Sendo a corporeidade a maneira pelo qual os indivíduos se relacionam com o mundo a sua volta por meio do corpo, a mesma também é alvo das relações de poder. Mas para que as relações de poder possam ser exercidas elas também precisam produzir saber, sobre o saber Foucault (2008) diz, Um saber é aquilo de que podemos falar em uma prática discursiva que se encontra assim especificada: o domínio constituído pelos diferentes objetos que irão adquirir ou não um status científico [...] um saber é, também, o espaço em que o sujeito pode tomar posição para falar dos objetos de que se ocupa em seu discurso (neste sentido, o saber da medicina clínica é o conjunto das funções de observação, interrogação, decifração, registro, decisão, que podem ser exercidas pelo sujeito do discurso médico) [...] finalmente, um saber se define por possibilidades de utilização e de apropriação oferecidas pelo discurso [...] Há saberes que são independentes das ciências (que não são nem seu esboço histórico, nem o avesso vivido); mas não há saber sem uma prática discursiva definida, e toda prática discursiva pode definir-se pelo saber que ela forma. (FOUCAULT, 2008, p. 204 -205). Poder e saber estão então diretamente relacionados, “O poder produz saber [...], não há relação de poder sem constituição correlata de um campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo tempo relações de poder” (FOUCAULT, 1999a, p.31). O saber está na base da produção de dispositivos que se tornam veículos, estratégias e ferramentas que viabilizam as relações de poder. Para melhor compreender o termo dispositivo, em uma entrevista concedida em 1977 e intitulada “Le jeu de Michel Foucault”, o autor explica: Por esse termo tento demarcar, em primeiro lugar um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito são os elementos do dispositivo. O dispositivo é a rede que se pode tecer entre estes elementos (FOUCAULT, 2018, p. 364). Existe, portanto, uma relação concomitante entre os jogos de poder, as produções de saber e os dispositivos inerentes a cada período das sociedades para produzirem seus 30 sujeitos. Esses movimentos precisam ser entendidos uns em relação aos outros. Na obra “Vigiar e Punir: nascimento da prisão” publicada em 1975 Foucault (1999a) aborda como as relações de poder se exercem sobre o corpo de condenados à prisão por meio do poder disciplinar. As disciplinas (celas, fileiras, isolamentos, o controle do tempo, medicamentos) impostas dentro das prisões geridas pelo dispositivo da vigilância acabam por domar os indivíduos tornando-os dóceis. Essas medidas disciplinares são extensivas à outras instituições como escolas, hospitais, espaços urbanos, quartéis militares, entre outros e tem por objetivo tornar os homens úteis e dóceis. Já em seu trabalho “História da sexualidade: a vontade de saber” Volume I8, publicado em 1976, Foucault (1999b) compreende que os dispositivos de controle podem se desenvolver de diferentes formas não sendo apenas de tipo disciplinar. Os dispositivos da sexualidade por exemplo, podem ocorrer de duas formas, a primeira é a “anatomopolítica do corpo humano” que parte da perspectiva do corpo enquanto máquina e a segunda é o “biopoder’ que tem como foco a regulação das populações, esse poder age sobre o corpo dos indivíduos como espécie. Esses dois dispositivos são exercidos através do que ele denominou de biopolítica. Já no texto “O nascimento da medicina social”9 Michael Foucault (2018) define o seu conceito de medicalização a partir do nascimento da medicina social. A hipótese apresentada é que o investimento capitalista no controle da sociedade sobre os indivíduos não se dá somente pela consciência ou pela ideologia, mas começa antes de tudo no corpo, no biológico, no somático. “Minha hipótese é que com o capitalismo não se deu a passagem de uma medicina coletiva para uma medicina privada, mas justamente o contrário; que o capitalismo desenvolvendo-se em fins do século XVIII e início do século XIX, socializou um primeiro objeto que foi o corpo enquanto força de produção, força de trabalho. O controle da sociedade sobre os indivíduos não se opera simplesmente pela consciência ou pela ideologia, mas começa no corpo, no somático, no corporal que, antes de tudo, investiu a sociedade capitalista. O corpo é uma realidade 8 Em 1984 foram publicados os outros dois volumes de História da sexualidade sendo o volume II “O uso dos prazeres” e o volume III “O cuidado de si”. Nesses dois trabalhos Foucault se centra no que chama de “Técnicas de Si ou Práticas de Si” que são formas pelas quais os indivíduos constroem suas moralidades ou mais precisamente como se tornam sujeitos morais. Ver em: FOUCAULT, Michel. História da sexualidade II: o uso dos prazeres. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque. 8a. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1998 e FOUCAULT, Michel. História da sexualidade III: o cuidado de si. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque. 8a. ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2005. 9 Conferência proferida por Michael Foucault em 1974 - no Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. In: FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. Organização e Tradução de Roberto Machado. - 7ª ed. - Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2018. 432pp. 31 biopolítica. A medicina é uma estratégia biopolítica”. (FOUCAULT, 2018, p.144). A medicalização é então um dispositivo central dentro da biopolítica. Em “Vontade de Saber” Foucault (1999b) apresenta a noção de biopolítica como resultante das profundas transformações operadas nos mecanismos de poder que ocorreram no ocidente a partir da época clássica. Se antes esses mecanismos situavam-se muito mais na ideia de confisco que gerava o direito de morte, agora esse se torna apenas mais um mecanismo entre outros vários, como o controle e a vigilância; A grande transformação se deu por que essas forças em sua grande maioria não estão mais direcionadas a subtrair a vida impondo a morte, mas sim em produzir a vida de forma controlada, vigiada, ordenada. Um poder que se exerce positivamente sobre a vida. Existe um deslocamento da soberania jurídica do direito de matar para outra soberania, a biológica, a soberania de um poder que se exerce “ao nível da vida da espécie, da raça e dos fenômenos maciços de população” (FOUCAULT, 1999b, p. 129). O poder político e econômico, por meio das instituições assume a tarefa de gerir a vida. Para Foucault (1999b) esse poder se desenvolveu inicialmente de duas formas: as disciplinas do corpo e a regulação das populações tendo como objetivo primordial investir sobre a vida de cima para baixo. “Abre-se assim a era de um bio-poder”. (FOUCAULT, 1999b p. 131). O biopoder se estruturou tanto no controle dos corpos dentro do aparelho de produção, como no ajustamento das populações aos processos econômicos se constituindo como elemento indispensável do capitalismo. O capitalismo por sua vez promove o investimento no desenvolvimento dos conhecimentos a respeito da vida, das técnicas e dos procedimentos de poder para controlá-la e modificá-la e pela primeira vez na história o biológico passa a se refletir na agenda político-econômica sendo absorvido em todos os níveis do corpo social e utilizado por instituições diversas (a família, o exército, a escola, a polícia, a medicina individual ou a administração das coletividades) garantindo relações de dominação e efeitos de hegemonia. Nesse sentido Foucault (1999b) observa o fortalecimento do fenômeno da “medicalização da vida” que em termos gerais é entendida como uma apropriação das questões cotidianas da vida pelos saberes médicos, ou seja, quanto maiores forem os diagnósticos médicos com definição de patológicos para situações habituais, transformando problemas cotidianos da existência em problemas médicos- 32 farmacológicos, maior será a busca por um tratamento que seja ao mesmo tempo rápido e eficaz gerando consequências como a “Medicamentalização”, [...] o termo “medicamentalização” se refere ao uso de medicamentos em situações que, anteriormente, não eram consideradas problemas médicos e, consequentemente, não existia um tratamento farmacológico para tal. Portanto, a medicamentalização pode ser considerada uma das consequências da medicalização. (BRASIL, 2018a, p.13). Nesse sentido existe uma biopolítica (tanto anatomopolítica do corpo, como biopoder das populações) em curso fomentada pela relação entre indústria farmacêutica e saber médico, a primeira produz o medicamento alopático químico-sintético, mas é a segunda que pode prescrever e recomendar o seu uso. Pensando especificamente nos cuidados ginecológicos propostos pela Biomedicina o dispositivo biopolítico da medicalização captura as fases biológicas do corpo feminino desde a primeira menstruação, conhecida também como menarca até a fase que marca o fim do ciclo reprodutivo conhecido como climatério/menopausa. Além disso, o saber-poder dos discursos biomédicos desestabilizaram outras formas de cuidados em saúde. A seguir abordaremos alguns panoramas desses dispositivos. 1.3 Do Natural ao Sintético: Os Hormônios Sexuais como Dispositivos Medicalizantes. Um dos objetivos da GN é promover o debate acerca da medicalização da saúde feminina problematizando a necessidade de prescrição de medicamentos alopáticos químicos-sintéticos, mais especificamente da pílula anticoncepcional e da Terapia de Reposição Hormonal para tratar os sintomas disparados pelos processos fisiológicos naturais dos corpos femininos quando estes podem, em muitos casos, serem tratados com plantas medicinais nas formas de chás, banhos e vaporizações, ou seja, como remédio. Esse questionamento nos leva a remontar as transformações ocorridas nas práticas terapêuticas que levaram a propagação dos medicamentos alopáticos químicos-sintéticos dentro da Biomedicina possibilitando o desenvolvimento dos hormônios sintéticos e por conseguinte os transformando em dispositivos de controle dos corpos femininos. Para tanto o primeiro ponto a ser evidenciado é a diferença entre remédios e medicamentos já 33 que é bastante comum o uso desses conceitos como sinônimos. De acordo com a cartilha nacional “O que devemos saber sobre medicamentos” publicado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), A ideia de remédio está associada a todo e qualquer tipo de cuidado utilizado para curar ou aliviar doenças, sintomas, desconforto e mal- estar. Alguns exemplos de remédio são: banho quente ou massagem para diminuir as tensões; chazinho caseiro e repouso em caso de resfriado; hábitos alimentares saudáveis e prática de atividades físicas para evitar o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis; medicamentos para curar doenças, entre outros. Já os medicamentos são substâncias ou preparações elaboradas em farmácias (medicamentos manipulados) ou indústrias (medicamentos industriais), que devem seguir determinações legais de segurança, eficácia e qualidade. (BRASIL, 2010, p.14). Observa-se então que todo medicamento é um remédio, mas nem todo remédio é um medicamento. De acordo com o documento elaborado pela ANVISA “as plantas medicinais são utilizadas na medicina popular dos diversos povos, como remédios para auxiliar nos problemas de saúde, normalmente na forma de chás e infusões. Também são usados pela medicina atual como base para a produção dos medicamentos fitoterápicos”. (BRASIL, 2010, p.56). Adentrando no universo dos medicamentos Azize (2002, p.12) observa que “a expressão medicamento responde hoje por uma gama de produtos bastante heterogênea” e a ANVISA os define como: “produtos especiais elaborados com a finalidade de diagnosticar, prevenir, curar doenças ou aliviar seus sintomas, sendo produzidos com rigoroso controle técnico para atender às especificações determinadas pela Anvisa” (BRASIL, 2010, p.12). Existem, portanto, diferentes classificações de medicamentos que se dão quanto ao tipo de reação provocada no organismo, a forma de produção e o tipo de substâncias utilizadas para produzirem os seus efeitos. Assim um medicamento pode ser alopático ou homeopático, o primeiro produz uma reação contrária aos sintomas apresentados pelo organismo doente, sendo que: “os principais problemas dos medicamentos alopáticos são os seus efeitos colaterais e a sua toxicidade” (BRASIL, 2010, p.52). Já os homeopáticos não são agressivos e atuam no fortalecimento das defesas do organismo podendo ser usado com segurança em todas as idades bastando o acompanhamento do clínico homeopata. Quanto a produção os medicamentos alopáticos podem ser fabricados em larga escala pela Indústria Farmacêutica ou ser manipulado de forma personalizada em uma farmácia de manipulação. Os medicamentos homeopáticos são preparados a partir de sucessivas 34 diluições da substância obedecendo todas as normas sanitárias exigidas para produção de outros medicamentos. Em relação aos efeitos produzidos no organismo tudo vai depender da origem das substâncias utilizadas na formulação, essas substâncias são denominadas fármacos, drogas ou princípios ativos e podem ser de origem natural (plantas e em menor frequência minerais e animais), sintetizados em laboratório ou biológicos. (BRASIL, 2010). Os Fitoterápicos por sua vez são medicamentos alopáticos produzidos de forma industrializada ou manipulada e obtidos a partir das plantas medicinais. O processo de produção de um medicamento Fitoterápico precisa obedecer às normas rígidas e a regularização da ANVISA para sua comercialização. (BRASIL, 2010). Observa-se então que a GN ao suscitar autonomia incentiva suas praticantes a desenvolverem suas próprias medicinas - como elas mesmas se referem - a partir das plantas medicinais. Isso implica o uso dessas plantas a partir dos conhecimentos tradicionais, porém sem descartar os avanços da Fitoterapia Moderna que ao pesquisar os princípios ativos de uma planta para processá-los industrialmente avança nos conhecimentos sobre seus efeitos terapêuticos, dosagens seguras, perigo de interação medicamentosa10, entre outros. Veremos no relato de campo que um dos objetivos da GN é compreender o que está provocando os sintomas e não somente eliminá-los. As plantas medicinais não são empregadas somente para eliminar sintomas desconfortáveis, mas como um veículo que conduz a auto-observação e autoescuta e isso ocorre por que a relação desenvolvida com as plantas se faz a partir da compreensão de que elas carregam uma sabedoria energética que se materializa em suas propriedades medicinais. Essas propriedades tem efeitos terapêuticos, mas também ensinam como os ritmos da natureza movimentam os ciclos externos e internos da vida e dos corpos. Assim, a lógica que sustenta a preparação de um chá ou de uma infusão, mesmo que de ervas secas compradas em ervanários é diferente da lógica do uso de um medicamento comprado na farmácia, mesmo que esse seja um Fitoterápico. Atualmente a Indústria Farmacêutica vem investindo no desenvolvendo de medicamentos biológicos e como o próprio nome sugere são produzidos a partir de células vivas que atuam como uma fábrica, “assim, a química orgânica dá lugar à biologia 10 Interação medicamentosa é o evento clínico em que o efeito de um medicamento é alterado pela presença de outro fármaco, de alimento, de bebida ou de algum agente químico. Constitui a principal causa de problemas relacionados a medicamentos. Portanto, é muito importante se informar sobre a utilização correta do medicamento com o médico ou farmacêutico. (BRASIL, 2010, p.43). 35 molecular e aos processos biotecnológicos. Sob o ponto de vista industrial, a maioria dos produtos farmacêuticos biológicos é produzida em cultura de células geneticamente modificadas”. (BRITTO, 2012, p.6). Esse é um processo extremamente complexo, mas tem se mostrado eficaz no tratamento de doenças crônicas que não obtiveram bons resultados com as terapias tradicionais, mas devido ao seu alto custo os medicamentos alopáticos químicos-sintéticos ainda permanecem sendo os mais produzidos, comercializados e prescritos. De acordo com Gilman e Rivera (2012, p.3) “A fascinação, e as vezes paixão, do homem pelas substâncias que alteram as funções biológicas do corpo (ou seja, os fármacos) é antiga e resulta da sua experimentação e dependência das plantas”. Isso significa que os primeiros fármacos descobertos foram originados das plantas e são considerados naturais. Ocorre que a maioria das plantas são capazes de realizar síntese química como uma reação de defesa de seus organismos. Os compostos resultantes desse processo passaram a ser empregados pelo ser humano a partir da observação dos efeitos dessas substâncias nos animais. (GILMAN; RIVERA, 2012). Esse movimento foi resultado de um longo percurso de experimentação prática e empírica dos efeitos dessas substâncias levando diferentes civilizações como a chinesa11, a egípcia12 e a indiana13 a formularam as primeiras farmacopeias14 escritas. Vale lembrar que o uso terapêutico dessas plantas também tinha relação com o sagrado sendo empregadas num contexto mágico-religioso que reconhece a influência tanto do mundo natural, como do mundo espiritual no desenvolvimento e tratamento das doenças. (FREITAS, 2014). 11 Pen Ts’ao ou “A grande fitoterapia” é uma farmacopeia elaborada por volta de 2.500 a 2.800 a.C. e conta com aproximadamente 250 plantas. Foi atribuída ao imperador Sheng-Nung considerado o pai da medicina chinesa. (ALMEIDA, MZ, 2011); (ROCHA et al,2005), (DEVIENNE, K. F. et al 2004). 12 O Papiro de Ebers encontrado na antiga cidade de Tebas (atual Luxor) no Egito, data de cerca de 1500 a.C e é considerado um dos mais complexos tratados médicos da antiguidade. “Aqui começa o livro da produção dos remédios para todas as partes do corpo humano” é a frase que inaugura o documento que reúne aproximadamente 800 receitas. (ALMEIDA, MZ, 2011); (ABOELSOUD, N. H, 2010); (ROCHA et al,2005). 13 A farmacopeia indiana teria sido iniciada no período védico por volta de 3.000 a 1.000 a.C. Já por volta de 400 a.C foi escrito o Vriksha Ayurveda ou “A Ciência da Vida das Plantas” reunindo cerca de 650 plantas em seus diversos aspectos como a botânica, a agricultura e as aplicações terapêuticas no uso medicinal. (DEVESH e MANDAL, 2015). 14 1. Do gr. pharmakopoíia 'confecção de drogas'. Arte de preparar e compor medicamentos, ou livro que a ensina. 2. Coleção, catálogo ou repositório de receitas e fórmulas de drogas e medicamentos; receituário. http://lattes.cnpq.br/2464488628312435 36 Os gregos possivelmente inspirados pelos egípcios começaram a sistematizar seus conhecimentos sobre práticas de cura e por volta de 500 a.C Pitágoras (c580-510 a.C) tenta encontrar explicações para os efeitos medicinais das plantas que estivessem para além do cunho místico, passando a influenciar novos estudos sobre medicina e práticas terapêuticas. (SAAD et al; 2018). Nos anos subsequentes nomes como Hipócrates (460– 377 a.C.) e suas pesquisas no campo da medicina (CAIRUS, 2005); Teofrasto (371-286 a.C.) no campo da botânica” (SOUZA E SILVA; PAIVA, 2016); Pedânio Dioscórides (40-90 d.C.) desenvolvendo os princípios da farmacognosia15 (ROCHA et al, 2015; ALMEIDA, 2011; DIAS, 2005) e Claudius Galeno (130-200 d.C.) com práticas que se tornariam fundamentais para a Farmácia (DIAS, 2005; NOGUEIRA et al; 2009), se esforçaram em catalogar e descrever os usos farmacológicos de centenas de plantas. Já na da Idade Média (V - XV d.C.) com o fim do Império Romano e a ascensão da Igreja Católica Apostólica Romana o investimento nas diferentes áreas do conhecimento incluindo a aplicação terapêutica das plantas passaram aos domínios da Igreja que retirou de circulação inúmeros documentos detendo-os em suas bibliotecas e aumentando o controle sobre a população. Enquanto na Europa o processo era de estagnação, na Civilização Árabe com a expansão do Império Islâmico (632–732 d.C.) as atividades científicas emergiam a todo vapor e eles começaram a incorporar os conhecimentos médicos dos gregos e indianos. Uma das heranças desse período que exerceram grande influência na Europa durante o Renascimento foi a primeira Farmacopeia árabe escrita por Ibnal Baitãr e intitulada “O Corpo dos Simples” constando cerca de 14000 drogas, em sua maioria, vegetais. (DEVIENNE; RADDI; POZZETTI, 2004, p. 12). Chegando na Idade Moderna (1453 d.C.) o médico, físico, farmacêutico e alquimista suíço chamado Theophrastus Philippus Aureolus Bombastus von Hohenheim, mais conhecido como Paracelso (1493-1541) foi responsável por muitas inovações conceituais nas áreas da medicina, da farmácia e da química. Defendia que as doenças e enfermidades também podiam ocorrer por influências externas e que os minerais e os metais poderiam atuar de forma terapêutica uma vez que os mesmos não existiam apenas fora do corpo humano, mas também dentro do mesmo, ou seja, existiam na forma orgânica e inorgânica. 15 Do gr. pharmakon (fármaco) e gnosis (conhecimento). Estudo dos princípios ativos naturais de origem vegetal ou animal. http://lattes.cnpq.br/2464488628312435 37 Paracelsus inaugurou a ideia de iatroquímica, ou seja, a perspectiva de que existem agentes químicos específicos das doenças e assim elas podem ser curadas por substâncias químicas. (NOGUEIRA et al; 2009). Defendia ainda que cada doença específica exige um tratamento também específico, observando que uma substância química atuará no organismo como medicamento ou veneno a partir de sua dosagem. Por conta dessa perspectiva muitos atribuem a ele à antecipação de algumas práticas da medicina homeopática. (STRATHERN, 2002). A busca pela “quintessência”, ou seja, a destilação de substâncias com a finalidade de encontrar sua essência possibilitou o entendimento de que é possível extrair e/ou isolar o componente terapeuticamente ativo de uma planta a partir de um processo químico. Até aquele momento as plantas com finalidades terapêuticas eram usadas ou em partes (folhas, galhos e sementes) ou inteira, conforme se mantém na medicina popular. (SAAD et al; 2018; ALMEIDA, 2011; NOGUEIRA et al; 2009; DIAS, 2005). Já no final do século XVIII e início do século XIX a Química se estabelece como disciplina científica e os estudos do isolamento dos compostos ativos das plantas que já eram referência pelo seu uso medicinal junto à população avançam (FIRMO et al; 2011; VIEGAS JR; BOLZANI; BARREIRO, 2006). Assim no final do século XIX com a descoberta do Ácido Acetilsalicílico (ASS) mudanças profundas nas práticas terapêuticas começam a se desenvolver. Essa história, no entanto, tem início com a casca do Salgueiro Branco (Salix alba) que já era utilizada pelos chineses a cerca de 2500 anos para tratar diversas doenças sendo empregada também pelos já mencionados Hipócrates e Dioscórides. (MAIA, 2007). Tempos se passaram até que em 1763 o reverendo inglês Edward Stone comunicou a “The Royal Society of London”16 que havia obtido bons resultados com a administração do pó extraído da casca do Salgueiro Branco em pacientes febris. A partir de então várias pesquisas foram desenvolvidas até que em 1828 Johann Buchne consegue isolar o princípio ativo da planta o batizando de Salicina. Em 1838 Rafaelle Piria consegue obter o ácido salicílico a partir da Salicina que passa a ser administrado para diminuir os sintomas de gripe e artrite, porém eram necessárias grandes quantidades do produto para 16 Importante instituição de promoção dos conhecimentos científicos da época. 38 obter os seus efeitos terapêuticos resultando em dois contratempos: o primeiro a irritação da parede do estômago por conta da acidez do produto e o segundo a dificuldade de comercialização. Já em 1859 o químico Kolbe desenvolve um modelo totalmente sintético do ácido salicílico viabilizando sua comercialização e em 1897 o farmacologista e químico Felix Hoffmann se empenha em descobrir uma forma para atenuar os efeitos colaterais do ácido salicílico chegando ao ácido acetilsalicílico que possui efeitos menos ácidos e propriedades analgésicas mais eficazes. (MAIA, 2007). Somando-se a esse contexto já no final do século XIX começaram a surgir no cenário mundial às primeiras indústrias farmacêuticas de grande porte e em 13 de março de 1877 John Wyeth & Brother registrou nos Estados Unidos a patente da criação do comprimido, o que representou um grande salto da indústria farmacêutica uma vez que viabilizou a produção de medicamentos em larga escala aumentando exponencialmente sua distribuição. (DIAS, 2005). Dentre essas empresas estava a Bayer & Co onde Felix Hoffmann trabalhava e assim a Bayer registrou o produto desenvolvido pelo seu funcionário como Aspirina® e em 1899 iniciou a comercialização desse que foi primeiro fármaco sintético da história e permanece até os dias atuais como um dos medicamentos mais vendidos no mundo. (MAIA, 2007). Assistimos a partir de então uma verdadeira revolução farmacológica com a proliferação dos fármacos sintéticos que se desenvolveram ainda mais em decorrência da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). As pesquisas militares investiram fortemente no desenvolvimento de medicamentos para dor, infecção e depressão afim de auxiliar no tratamento de soldados e vítimas da guerra. (VIEGAS JR; BOLZANI; BARREIRO, 2006). O período pós-guerra foi de prosperidade para o desenvolvimento dos fármacos sintéticos, como os anti-histamínicos (e.g. mepirazina,), antipsicóticos (e.g. clorpromazina), antidepressivos (e.g. imipramina) e os ansiolíticos benzodiazepínicos e.g. clordiazepóxido). A indometacina um importante fármaco anti-inflamatório não-esteróide de natureza indólica, surgiu nesta época (1962), dando início ao desenvolvimento dos fármacos anti-inflamatórios não-esteroidais (NSAIDs). Nesta época, os produtos naturais observaram um período de declínio em termos de investimentos e interesse da indústria farmacêutica. (VIEGAS JR; BOLZANI; BARREIRO, 2006, p. 329). Esse processo representou grandes transformações na terapêutica de cuidados dentro da Biomedicina que junto ao sucesso dos novos fármacos e a consolidação da Indústria 39 Farmacêutica com seus interesses comerciais promoveram gradativo desinteresse da Biomedicina no emprego terapêutico das plantas medicinais. (SCHENKEL et al; 1985). Por outro lado, os investimentos cada vez maiores no desenvolvimento da Química orgânica e da Farmacologia levaram a síntese de inúmeras substâncias incluindo hormônios semelhantes aos produzidos pelos ovários femininos possibilitando a formulação da pílula anticoncepcional e da Terapia de Reposição Hormonal (TRH). Mas antes que isso ocorresse de fato foi preciso uma mudança da percepção do funcionamento fisiológico do corpo humano com a descoberta dos hormônios. Em 1905 o professor de fisiologia na University College de Londres Ernest Henry Starling criou o termo hormônios para designar substâncias químicas produzidas em órgãos específicos do corpo que são liberadas na corrente sanguínea afetando outros órgãos e regulando processos orgânicos. (ROHDEN, 2008; REIS, 2002; BONAN, TEIXEIRA, NAKANO, 2017). Entre 1920 e 1930 foram realizadas descobertas importantes sobre as funções hormonais dentre elas que as gônadas ou glândulas sexuais produzem hormônios; a gônadas femininas (ovários) são responsáveis pela produção de estrógeno e progesterona e as gônadas masculinas (testículos) são responsáveis pela produção de testosterona, estes ficaram conhecidos como hormônios sexuais femininos e masculinos. Rohden (2008) faz uma excelente análise sobre como essa diferenciação foi instrumentalizada pelo saber médico-científico em consonância com interesses sócio-políticos para naturalizar as diferenças entre os sexos a partir da bioquímica. Quanto à diferença entre homens e mulheres, se pelo menos até o final do século XIX era nítida a busca de um órgão que a explicasse e fundamentasse, já nas primeiras décadas do século XX o desafio era entender como as substâncias produzidas pelas gônadas operam o processo de diferenciação. Se antes o ovário poderia ser visto como centro condensador da feminilidade, assim como o testículo, da masculinidade, agora se tratava de descobrir o mecanismo de produção da feminilidade e da masculinidade. O paradigma bioquímico de causa e efeito determinava o que se deveria procurar e até onde as explicações deveriam chegar. Foi nesse contexto de busca pelas causas últimas dos fenômenos e de marcada relação entre gênero e sexo físico-corporal, substancializado em órgãos e agora em secreções internas, que se ‘descobriram’ os chamados hormônios sexuais. (ROHDEN, 2008, p.146). Os hormônios sexuais passam então a ser uma resposta explicativa para uma série de questões fisiológicas que aparecem quando os mesmos estão em desequilíbrios, mas não só! Às associações deterministas entre os hormônios sexuais e os comportamentos ditos http://lattes.cnpq.br/6985652531782616 40 masculinos e femininos passam a ser discurso corrente tanto do saber médico-científico como da sociedade; Sociedade esta que estruturada em um sistema patriarcal sobrepõe seus mecanismos de controle com pesos desiguais de forma que as mulheres são muito mais atingidas pelo discurso do corpo hormonal. “Fenômenos como a tensão pré- menstrual (TPM) ou as transformações percebidas com a menopausa têm sido usados como chaves explicativas para as mais variadas formas de comportamento e têm alimentado uma grande indústria de tratamento dos ‘problemas femininos’”. (ROHDEN, 2008, p.134). Nesse sentido observa-se que a comercialização dos hormônios sexuais masculinos é muito inferior ao dos hormônios femininos e a andropausa (diminuição da produção de testosterona) enquanto questão clínica similar a menopausa (fim da produção de estrógeno e progesterona) não causou tanto impacto no mundo masculino. (ROHDEN, 2008; OUDSHOORN, 1994). Até a década de 1920 acreditava-se que os hormônios femininos só estariam presentes nas mulheres sendo responsáveis pelas características ditas femininas como curvas, seios, sensibilidade, irritabilidade e dependência e os masculinos nos homens sendo responsáveis pelas características ditas masculinas como músculos, barba, força e virilidade. Após a realização de experimentos em animais concluiu-se que machos e fêmeas apresentavam tanto testosterona como estrógeno. (OUDSHOORN, 1994). Apesar das nítidas evidências científicas, não houve uma transformação imediata no campo. Os novos dados foram recebidos com muita resistência e incômodo, e somente uma década depois foi possível aceitar uma nova relação entre hormônios e sexo. Na década de 1930 ainda se descreviam, com espanto, as experiências nas quais se detectava a presença de hormônios femininos em machos e, notadamente com menos importância se descrevia a presença de hormônios masculinos em fêmeas. Gradualmente passou-se a demonstrar uma diferença quantitativa na presença dos hormônios típicos de machos e fêmeas. Embora os cientistas tivessem identificado a não exclusividade na origem e função dos hormônios, os ginecologistas, na clínica, continuaram promovendo um modelo dualista. (ROHDEN, 2008, p.146-147). Oudshoorn (1994) desenvolveu uma pesquisa minuciosa remontando a concepção dos hormônios sexuais e evidenciando a relação entre médicos clínicos, laboratórios bioquímicos e Indústria Farmacêutica que se intensifica no início do século XX construindo a passagem de um modelo biológico para um modelo bioquímico de entendimento do corpo humano. De acordo com Preciado (2018) essa relação que se estende numa rede muito mais ampla envolvendo humanos, os ditos não-humanos e 41 animais, servirá como mola propulsora para transformar os hormônios sexuais em um dispositivo de controle ingerível. Na década de 1950 foi desenvolvida a norestisterona, primeiro hormônio sexual sintético adequado para uso oral e em 1960 esses sintéticos foram materializados na forma de pílulas anticoncepcionais quando a Searle autorizada pela Food and Drugs Agence (FDA) passou a comercializar a primeira pílula anticoncepcional, o Enovid. (BONAN, TEIXEIRA, NAKANO, 2017). As pílulas passam então a atuar como artefatos farmacológicos comerciáveis e desde então o estrógeno e a progesterona se tornaram as moléculas mais produzidas pela Indústria Farmacêutica e a mais utilizadas pela medicina (PRECIADO, 2018). “O mais surpreendente, porém, não é a produção industrial em massa de hormônios colocados sob categoria de sexuais, e sim o fato de que essas moléculas foram utilizadas prioritária e quase exclusivamente sobre o corpo das mulheres pelo menos até o início do século XXI. (PRECIADO, 2018, p.180- 181). Ocorre que desde o seu lançamento a pílula anticoncepcional se tornou um símbolo de revolução e emancipação feminina (NUCCI, 2012). Seu efeito contraceptivo trouxe a perspectiva de autonomia para as mulheres que poderiam a partir de então decidir sobre suas vidas sexuais e reprodutivas. “Assim, o anticoncepcional veio ao encontro dos clamores feministas por liberdade sexual e ajudou a potencializar esses enfrentamentos da moral da época, produzindo novas invenções do feminino” (LEAL, BAKKER, 2017, p. 3). Rohden (2018) observa que o consumo de hormônios por mulheres tanto na forma de pílulas anticoncepcionais como na forma de Terapia de Reposição Hormonal sempre foi polêmico. Se por um lado temos a promessa de emancipação do corpo e da sexualidade feminina do outro ocorre o controle da subjetividade amparado nos discursos contemporâneos de saúde, juventude e bem-estar. A rede médico-farmacêutica sempre se esforçou em minimizar os efeitos colaterais desses dispositivos e evidenciar como essa promessa tecnológica pode atender as necessidades das mulheres. Mas acontece que muitas dessas necessidades são decorrentes de um discurso medicalizante tendo em vista que são ficcionais em termos fisiológicos. Isso pode ser muito bem observado no período de climatério/menopausa vivido pelas mulheres. De acordo com a Organização Mundial da Saúde o climatério é uma fase biológica da vida, portanto não patológica. Essa fase compreende a transição entre o período reprodutivo e o não reprodutivo do corpo feminino. Já a menopausa corresponde ao último ciclo menstrual e só é definida como tal após passados 12 meses da sua ocorrência. Na maioria dos casos essa fase acontece em torno dos 48 e 50 anos de idade, podendo em alguns caso 42 acontecer antes ou após essa idade. (BRASIL, 2008). A vivência dessa etapa da vida é sentida de diferentes formas por diferentes mulheres e muitas passam por essa fase sem queixas de sintomas e sem a necessidade de medicamentos, outras apresentam sintomas que variam em diversidade e intensidade. Nesse sentido é importante que os tratamentos sejam específicos para cada mulher podendo variar entre a terapêutica medicamentosa hormonal ou não hormonal e/ou terapias não medicamentosas. De acordo com (BRASIL, 2008, p.135). “Neste contexto a mulher deve ser vista como protagonista de sua vida e a ela caberá, desde que devidamente informada e com apoio profissional, a opção de como vivenciar esta fase”. Porém, mesmo com os avanços das políticas públicas de saúde para as mulheres desenvolvidas pelo Ministério da Saúde, a medicalização ainda é uma realidade a ser superada uma vez que seus discursos possuem apelos que abarcam questões como juventude e produtividade. Com esses apelos o livro “Eternamente Feminina” publicado no ano de 1966 pelo médico Robert Wilson se tornou um best-seller. Wilson (1966) atribuiu a essa fase natural específica dos corpos femininos o estatuto de doença recomendando para à mesma tratamento e cura a partir da Terapia de Reposição Hormonal (TRH). (TRENCHI e ROSA, 2008; FREITAS, 2008; TRENCHI e SANTOS, 2005). O artigo publicado em 1963, de autoria do Dr. R. E. Brevetti, do Dr. Robert A. Wilson e de sua esposa Dr.ª Thelma Wilson, intitulado Specific procedures for the elimination of the menopause, credenciou o Dr. Wilson como o precursor da Terapia de Reposição Hormonal. Mas foi a publicação de Feminine Forever, em 1966, um livro destinado às leigas, que teria expandido estas ideias de modo mais amplo. Eternamente feminina transformou-se num best-seller, vendido até mesmo em lojas de departamento. O livro também teria sido bem recebido pelas revistas femininas, além de ser lido nos Estado Unidos e na Europa, especialmente na Alemanha. (FREITAS, 2008, p.113). Wilson (1966) foi responsável por inaugurar a correlação entre a administração de estrógenos e a prevenção do climatério/menopausa apelando sobretudo para a ideia de juventude para além da ideia de saúde, sendo assim, A menopausa (ou o término da vida reprodutiva) é tratada em nossa cultura como um dos principais marcos do envelhecimento feminino, e é como tal que os discursos biomédicos se apropriam deste acontecimento, estabelecendo um movimento de vinculação entre essa etapa, o envelhecimento e a patologia. Os meios para que essa http://lattes.cnpq.br/2045779582080140 http://lattes.cnpq.br/2853270936632028 43 associação seja desfeita seriam, grosso modo: prevenção, hormônios, rejuvenescimento. (TRENCHI e ROSA, 2008, p. 208). Freitas (2008) faz uma revisão interessante de “Eternamente Feminina” e encontra no discurso do Dr. Wilson afirmações que atribuem a TRH a mesma importância de medicamentos como os antibióticos, cunhando expressões como “Revolução biológica”, além de afirmações que atribuem ao climatério/menopausa caráter negativo e indesejado e definindo a menopausa como “[...] uma doença grave, dolorosa e frequentemente mutilante” (WILSON, 1966, p. 33). Ou ainda um evento “drástico”, “trágico”, uma “catástrofe” que afetaria todo o corpo da mulher (WILSON, 1966, p. 41). E deste “horror”, desta decadência vital, ninguém poderia escapar, pois “[...] toda mulher está ameaçada de sofrimento e incapacidade extremos” (WILSON, 1966, p. 44). “A menopausa para ele era sinônimo de castração, pois os ovários reconhecidos como órgãos centrais deixavam de produzir o estrógeno” (FREITAS, 2008, p.115). Os discursos do Dr. Wilson se tornam produtores de verdades que permeiam ainda hoje relações entre médicos e pacientes configurando as relações de poder-saber descritas por Foucault, esses discursos corroboram os dispositivos para a manutenção dessa biopolítica através do uso de medicamento no caso a TRH que passou a ser produzido em larga escala para atender aos anseios de muitas mulheres. Para que os hormônios sejam consumidos pelas mulheres na menopausa, não só as associações entre 'hormônios e rejuvenescimento' e 'hormônios e prevenção' deverão estar em constante circulação no imaginário, como também os médicos terão de ser parte integrante dessa cadeia associativa e constituir-se como o mais importante vetor para sua disseminação. Assim, é necessário que o médico extrapole o seu papel de prescritor legitimado e assuma também a função de imagem legitimadora desta prática de consumo. (TRENCHI e ROSA, 2008, p. 208). Os hormônios foram ganhando status de pílulas “milagrosas” e pouco dos seus efeitos colaterais são evidenciados, embora não sejam escondidos pelas empresas como podemos observar no site Gineco.com.br17 desenvolvido pelo Grupo Bayer Brasil18. Antes de mais nada a apresentação da empresa diz que “a Bayer atende às nossas necessidades humanas mais básicas: saúde e alimentação” (BAYER, 2019?). O 17 https://www.gineco.com.br/ . Acesso em 26 de abril de 2020. 18 https://www.bayer.com.br/pt/missao-e-valores . Acesso em 26 de abril de 2020. http://lattes.cnpq.br/2045779582080140 http://lattes.cnpq.br/2045779582080140 https://www.gineco.com.br/ https://www.bayer.com.br/pt/missao-e-valores 44 Discurso da empresa evoca sua história e investimentos científicos para transmitir credibilidade e angariar a confiança do visitante da página. A Bayer é uma empresa inovadora com uma história de mais de 150 anos e competências centrais nas áreas de saúde e agricultura. Desenvolvemos novas moléculas para a utilização em produtos inovadores e soluções para melhorar a saúde das pessoas, animais e plantas. Nossas atividades de pesquisa e desenvolvimento são baseadas na profunda compreensão dos processos bioquímicos que ocorrem nos organismos vivos. (BAYER, 2019?). Sobre a menopausa o site gineco.com.br diz que disponibiliza “informações sobre essa fase da vida e como passar por ela desfrutando do melhor que a idade pode trazer” (GINECO.COM.BR, 2019?a)19 e indica como tratamento a Terapia Hormonal. De acordo com o site “A terapia hormonal (TH), que é a reposição dos hormônios estrogênio e progesterona por meio de medicamentos, alivia efetivamente os sintomas da menopausa e tem como objetivo melhorar a qualidade de vida da mulher nessa nova fase” (GINECO.COM.BR, 2019?). Mas o site também informa que a TRH “aumenta as chances do desenvolvimento de algumas doenças, como tromboembolia pulmonar, câncer de mama, câncer de endométrio e doença hepática, além de apresentar sangramento vaginal não diagnosticado ou porfiria (distúrbio provocado por deficiências de enzimas)”. (GINECO.COM.BR, 2019?). Existe ainda a orientação para que as usuárias/pacientes/consumidoras procurem um médico para que possa ser realizado um tratamento individualizado onde os benefícios e os efeitos adversos sejam acompanhados. Observa-se que os efeitos colaterais do uso dos hormônios sintéticos são bastante alarmantes e esse é um dos motivos pelo qual vemos surgir na atualidade movimentos que pregam outros formas e práticas como alternativas tanto para os métodos contraceptivos como para TRH. Muitos grupos ativistas estão se propagando na internet através de sites e redes sociais levantando a bandeira do “corpo sem pílula” e slogans como “Adeus hormônios” como pode ser observado nos trabalhos de Santos e Cabral (2017) e Leal e Bakker (2017). Santos e Cabral (2017, p.5) observam que: Parece haver ali uma tentativa de pôr em prática uma nova forma de gestão do corpo e da sexualidade, com recurso a estratégias e métodos que são considerados como de menor agressão ao substrato orgânico/biológico. Cabe mencionar que esta tendência não se resume à contracepção. Por exemplo, as discussões em torno da troca do 19 https://www.gineco.com.br/en/node/961 . Acesso em 26 de abril de 2020. http://lattes.cnpq.br/5699124908355895 http://lattes.cnpq.br/5699124908355895 https://www.gineco.com.br/en/node/961 45 absorvente tradicional pelo “copo coletor” - que é visto como mais sustentável ao meio ambiente e menos agressivo ao corpo da mulher; a substituição de remédios para doenças “menos graves”, c