UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARTES ANDREIA FALQUETO LEMOS RELAÇÕES ENTRE PINTURA, FOTOGRAFIA E IMAGEM NA ARTE CONTEMPORÂNEA VITÓRIA 2017 ANDREIA FALQUETO LEMOS RELAÇÕES ENTRE PINTURA, FOTOGRAFIA E IMAGEM NA ARTE CONTEMPORÂNEA Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Teoria e História da Arte, na área de concentração Estudos em História, Teoria e Crítica da Arte. Orientador: Prof. Dr. Alexandre Emerick Neves VITÓRIA 2017 Dedico esta pesquisa à pessoa que me incentivou desde pequena a acreditar nas minhas capacidades e ir atrás dos desafios sem medo, minha mãe Célia (in memoriam) e a meu sobrinho, Francisco, que nos ensina a amar incondicionalmente, e com isso, perceber que a vida é feita de momentos pequeninos. AGRADECIMENTOS Agradeço pela oportunidade de estar viva e fazer essa pesquisa, cumprindo mais uma etapa nessa jornada. Agradeço ao Programa de Pós graduação e seus funcionários pela cooperação. Aos artistas Clarissa Campello e Fábio Baroli pela atenção e prestatividade. Aos professores que possibilitaram o acesso a conhecimentos variados nesse curso, enriquecendo meu saber e essa pesquisa. Ao Professor Alexandre Emerick Neves, por aceitar me orientar, ser paciente, cortês e generoso para com minha pesquisa. Aos Professores Ângela Grando, Larissa Zanin e Waldir Barreto por participarem da banca de defesa e auxiliar na pesquisa com comentários e pontuações necessárias. A Sandro, pela compreensão e auxílio nos momentos de dúvida e pela alegria proporcionada. A Raiara, amiga e revisora. A Leandro, Mariana, Gustavo, Fabiane, pela atenção, incentivo e bons momentos. Aos professores-amigos Lincoln Guimarães, Jose Carlos Vilar, Joyce Brandão e João Wesley de Souza pelo incentivo e conhecimento compartilhado. A Adriana, Nestor e Chiquinho, pelo carinho e atenção sempre. Aos meus colegas e alunos que estando perto ou distante, ajudaram com bom humor e incentivos. “Mas não existe nem normalidade absoluta, nem olho inocente, já que a visão é sempre paralela à interpretação, até na vida mais cotidiana. Ao copiar, nós fabricamos” (Jacques Aumont). RESUMO Iniciando a reflexão com o modernismo na arte e o advento da fotografia, esta pesquisa pretende fazer um estudo das relações entre foto e pintura através da história da arte moderna, elegendo trabalhos de arte e teorias da arte para embasar as reflexões. Além disso, trago aqui uma preocupação com questões da imagem ligadas à nossa vida, como índice, memória, registro do que existiu, afirmações de passados e fatos possíveis de conhecermos devido à existência da imagem técnica. Através do estudo de trabalhos de diversos artistas e teóricos da fotografia, imagem, pintura e história da arte, viso aqui entender e preencher uma pequena lacuna de questões sobre como a fotografia é usada no processo de criação de uma pintura figurativa, unindo a pesquisa em textos, reflexões e entrevistas com jovens artistas brasileiros. Pretendo entender, além do meu próprio ponto de vista, bastante empírico, como se dá o uso dessas imagens técnicas (termo de Vilém Flusser) e qual a relação que o artista (que faz pintura figurativa) tem com a fotografia em sua criação. Essas fotografias variam entre registro autoral, apropriação e colagem, sendo mais uma implicação nesse processo poético. Em suma, nessa pesquisa, as análises pretendem elucidar os modos e os meios de uso da imagem fotográfica por pintores contemporâneos, bem como de que forma essa relação constrói pontes com a memória evocada pela foto e significados contidos na imagem. Palavras-chave: pintura, fotografia, imagem, arte contemporânea. ABSTRACT Beginning the reflection with modernism in art and the advent of photography, this research intends to make a study of the relations of photography and painting through the history of modern art, choosing works of art and art’s theories to base these reflections. In addition, I bring here a concern with meanings of the image inherent in our life, such as index, memory, record of what existed, and affirmations of past and possible facts to know due to the existence of the technical image. Through the study of the works of several artists and theorists of photography, image, painting and art history, I intend to understand and fill a small gap in questions about how photography is used in the creation process of a figurative painting, uniting the research in texts, reflections and interviews with young Brazilian artists. I intend to understand, in addition to my own very empirical point of view, how the use of these technical images (Vilém Flusser’s terms) occurs, and what relation the artist who makes figurative painting has with photography in his creation. These photographs range from authoring, appropriation and collage, and are a further implication of this poetic process. In short, in this research the analyzes are intended to elucidate the ways and means of use of the photographic image by contemporary painters, and in what form this relationship builds bridges with the memory evoked by the photo and meanings contained in the image. Keywords: painting, photography, image, contemporary art. LISTA DE FIGURAS Figura 1: Daguerreótipo, modelo vendido pelo governo da França em 1860. Fonte: http://www.resumofotografico.com/2011/09/maquina-do-tempo-daguerreotipo.html .................................................................................................................................................................................. 21 Figura 2: Jean-Baptiste Sabatier-Blot, Retrato de Louis Daguerre (1844), 9.1 x 6.9 cm, Daguerreótipo. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Louis_Daguerre ...................... 22 Figura 3: Gustave Courbet, As banhistas, (1853), óleo s/ tela, 227x193 cm. Fonte: http://www.gustave-courbet.com/the-bathers.jsp ........................................................................... 24 Figura 4: Julien Vallou de Villeneuve. Étude d'après nature, nu n°1906 (1853) fotografia. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Julien_Vallou_de_Villeneuve ............ 25 Figura 5: Edgar Degas , O Absinto (1873), Óleo sobre tela, 92 × 68,5 cm. Fonte: http://www.musee-orsay.fr/en/collections/works- in-focus/search/commentaire_id/in- a-cafe-2234.html ............................................................................................................................................. 26 Figura 6: Giorgione ou Ticiano, Concerto campestre (1510), óleo sobre tela,110 × 138 cm. Fonte: http://www.louvre.fr/en/oeuvre-notices/pastoral-concert......................... 27 Figura 7: Marcantonio após Rafael, O Julgamento de Paris, (1515), gravura (detalhe). Fonte: http://www.metmuseum.org/toah/works-of-art/19.74.1/ ....................... 28 Figura 8: Édouard Manet, Almoço na relva (1862-63), óleo s/ tela, 208 × 264 cm. Fonte: http://www.musee-orsay.fr/fr/collections/oeuvres- commentees/recherche/commentaire_id/le-dejeuner-sur- lherbe- 7123.html?no_cache=1 ................................................................................................................................ 29 Figura 9: Théodore Géricault, O Derby em Epsom, (1821), óleo sobre tela, 91 × 122 cm. Fonte: http://www.wga.hu/html_m/g/gericaul/1/111geric.html .................................... 30 Figura 10: Eadweard Muybridge, O Cavalo em Movimento, (1878) Fotografia. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:The_Horse_in_Motion.jpg................ 31 Figura 11: Marilyn Monroe (1953) Foto arquivo do filme Niágara. Fonte: https://www.moma.org/learn/moma_learning/andy-warhol-gold-marilyn-monroe- 1962 ....................................................................................................................................................................... 34 Figura 12: Andy Warhol, The Marilyn Shots (Fundo azul), (1964), serigrafia, 65x71cm. Fonte: http://warholessays.tumblr.com/post/86782932030/shot- light-blue- marilyn-1964-this-is-a-painting .............................................................................................................. 35 Figura 13: Marilyn Monroe Morta em sua casa (1962), Registro fotográfico jornalístico. Fonte: http://www.celebritymorgue.com/marilyn-monroe/ ........................... 37 Figura 14: Marlene Dumas, Dead Marilyn, (2008), óleo sobre tela, 40 x 50 cm. Fonte: http://withreferencetodeath.philippocock.net/blog/dumas-marlene-dead- marilyn-2008/ ................................................................................................................................................... 38 Figura 15: Revista Stern, manchete da morte de Ulrike Meinhof (1976), registro fotográfico jornalístico. Fonte: http://letteraturaartistica.blogspot.com.br/2015/03/marlene-dumas-ev.html ................... 40 Figura 16: Gerhard Richter, Morta 1 (1988), óleo sobre tela, 62 cm x 67 cm. Fonte: https://www.gerhard-richter.com/en/art/paintings/photo-paintings/baader-meinhof- 56/dead-7687/?p=3 ........................................................................................................................................ 41 Figura 17: Marlene Dumas, Stern, (2004), óleo sobre tela, 110 x 130 cm. Fonte: http://www.tate.org.uk/art/artworks/dumas-stern-t12312 .......................................................... 43 Figura 18: Marlene Dumas, Lucy (2004), óleo sobre tela, 110 x 130 cm. Fonte: http://www.tate.org.uk/art/artworks/dumas- lucy-t12313 ........................................................... 45 Figura 19: Gerhard Richter, Moritz, (2000) óleo sobre tela, 62 cm x 52 cm. Fonte: https://www.gerhard-richter.com/en/art/paintings/photo-paintings/children-52/moritz- 10504/?&categoryid=52&p=1&sp=32 ................................................................................................ 47 Figura 20: Gerhard Richter, Gebirge (Montanha) (1968), tinta acrílica industrial s/ tela, 102 cm x 92 cm. Fonte: https://www.gerhard-richter.com/de/art/paintings/photo- paintings/alpine-1/mountains-5917/?&categoryid=1&p=1&sp=32 ..................................... 50 Figura 21: Gerhard Richter, Mountain Ranges, (1968) Atlas, folha 126, 2016, colagem. Fonte: http://www.sothebys.com/en/auctions/ecatalogue/2016/contemporary-art-evening- auction- l16020/lot.27.html ........................................................................................................................ 52 Figura 22: Aby Warburg - Mnemosyne: Ascent to the Sun. (1924-1929), Atlas painel 8. Fonte: https://warburg.library.cornell.edu/panel/8 ................................................................. 52 Figura 23: Gerhard Richter - Imagem 20 de 20 - Firenze (80/99) (2000), pintura sobre fotografia, 12 x 12 cm. Fonte: https://www.gerhard- richter.com/en/art/microsites/firenze?sp=118&s=&p=1 ............................................................ 53 Figura 24: Gerhard Richter -Imagem 16 de 18 - Firenze (80/99) (2000), pintura sobre fotografia,12 x 12 cm. Fonte: https://www.gerhard- richter.com/en/art/microsites/firenze?sp=118&s=&p=1 ............................................................ 53 Figura 25: Gerhard Richter - Imagem 13 de 20 - Firenze (33/99) (2000), pintura sobre fotografia, 12 x 12 cm. Fonte: https://www.gerhard- richter.com/en/art/microsites/firenze?sp=118&s=&p=1 ............................................................ 54 Figura 26: Gerhard Richter -Imagem 8 de 20 - Firenze (28/99) (2000), pintura sobre fotografia, 12 cm x 12 cm. Fonte: https://www.gerhard- richter.com/en/art/microsites/firenze?sp=118&s=&p=1 ............................................................ 55 Figura 27: Detalhe da Sala no museu de Krefeld, Alemanha. Fonte: https://s-media- cache-ak0.pinimg.com/originals/88/43/82/88438252953db8dce634f7e0307238fc.jpg .................................................................................................................................................................................. 57 Figura 28: Eric Fischl, Krefeld Project; Sunroom, Scene #1, (2002) óleo sobre linho. 198 x 305 cm. Fonte: http://www.ericfischl.com/krefeld-project-1/.................................... 57 Figura 29: Eric Fischl, Krefeld Project; Dining Room, Scene #2 (2003), óleo sobre linho, 226 x 315 cm,. Fonte: http://www.ericfischl.com/krefeld-project-1/..................... 59 Figura 30: Eric Fischl, Sem título, (2006) arquivo Eric Fischl, Fotografia. Fonte: http://sanjosemuseumofart.tumblr.com/post/40264222319/dive-deep-eric-fischls-use- of-photoshop-jodi ........................................................................................................................................... 62 Figura 31: Eric Fischl, Sem título, (2006) arquivo Eric Fischl, fotografia. Fonte: http://sanjosemuseumofart.tumblr.com/post/40264222319/dive-deep-eric-fischls-use- of-photoshop-jodi ........................................................................................................................................... 62 Figura 32: Eric Fischl, Sem título, (2006) arquivo Eric Fischl, fotografia. Fonte: http://sanjosemuseumofart.tumblr.com/post/40264222319/dive-deep-eric-fischls-use- of-photoshop-jodi ........................................................................................................................................... 63 Figura 33: Eric Fischl: Scenes From Late Paradise: Stupidity (2007), Óleo sobre linho, 213 x 274 cm. Fonte: http://sanjosemuseumofart.tumblr.com/post/40264222319/dive-deep-eric-fischls-use- of-photoshop-jodi ........................................................................................................................................... 64 Figura 34: Christiana Morgan, Cartões do T.A.T, (1935), desenho. http://blogs.lib.uconn.edu/archives/2016/09/06/charles-olson-and-henry-murray- projective-verse-and-the-projective-test/............................................................................................ 65 Figura 35: Eric Fischl. Saturday Night (The Aftermath Bath), (1980) óleo sobre glassine, 183 x 213cm. Fonte http://www.ericfischl.com/glassines/ .................................. 66 Figura 36: Eric Fischl, The Bed, The Chair, The Sitter, (1999) óleo sobre linho, 198 x 236cm. Fonte: http://www.deborahfeller.com/news-and-views/?p=1758 ......................... 67 Figura 37: Esquerda: Edward Hopper, Casa ao lado da ferrovia, óleo s/tela, (1925). Direita: Alfred Hitchcock, Cenário do Hotel Bates, de Psicose, filme de (1960). Fonte:https://www.edwardhopper.net/house-by-the-railroad.jsp Fonte: http://www.avclub.com/article/fans-petition-to-save-the-psycho-house-201365.......... 68 Figura 38: Escola de Fontainebleau, Portrait présumé de Gabrielle d'Estrées et de sa soeur la duchesse de Villars, (1594) óleo sobre tela, 96 cm x 125 cm. Fonte: http://www.louvre.fr/en/oeuvre-notices/gabrielle-d-estrees-and-one-her-sisters........... 72 Figura 39: Imago de Blaise Pascal (1662), gesso. Fonte: https://www.revolvy.com/topic/Blaise%20Pascal&item_type=topic.................................. 75 Figura 40: François II Quesnel, Blaise Pascal (detalhe) (1623-1672), óleo sobre tela, 70 × 56 cm. Fonte: https://www.revolvy.com/topic/Blaise%20Pascal&item_type=topic .................................. 75 Figura 41: A desconhecida do Sena, gesso, (por volta de 1880). Fonte: http://www.pittmed.health.pitt.edu/story/most-kissed-face ...................................................... 76 Figura 42: André Kertész, Paris, My Friend Ernest, (1929), fotografia. Fonte: http://archives.law.virginia.edu/kertesz/print/paris-my-friend-ernest-1929 ..................... 80 Figura 43: Nan Goldin, Nan One Month after Being Battered, (1984), fotografia. Fonte: http://www.tate.org.uk/art/artworks/goldin-nan-one-month-after-being- battered-p78045............................................................................................................................................... 82 Figura 44: Bert Stern - The Last Sitting, (1962), fotografia. Fonte: http://warholian.com/2017/01/marilyn-monroe-bert-stern/ ...................................................... 83 Figura 45: Elizabeth Peyton, Gladys and Elvis (1997), óleo sobre tela, 43.2 x 35.6 cm. .......................................................................................................................................................................... 84 Figura 46: Gladys Presley e Elvis, (1945). Fotografia, autoria desconhecida. 2017. 85 Figura 47: Fábio Baroli, sem título (Vendeta) (2016), óleo sobre tela, 160x140cm. Fonte: Acervo do artista .............................................................................................................................. 91 Figura 48: William Klein, Gun 1 (1955), Fotografia. Fonte: http://www.metmuseum.org/art/collection/search/265062 ....................................................... 92 Figura 49: Fábio Baroli, Vendeta - Sem Título, (2012) óleo sobre tela, 140 x 60 cm cada. Fonte: Acervo do artista .................................................................................................................. 95 Figura 50: Fábio Baroli, Intifada (2012), óleo sobre tela, 220x480 cm. Fonte: Acervo do artista .............................................................................................................................................................. 96 Figura 51: Fábio Baroli, Intifada (2012), óleo sobre tela, 48x60 cm cada tela. O grupo se repete como em cenas de um filme. Fonte: Acervo do artista ............................. 96 Figura 52: Fábio Baroli, Intifada (2012), óleo sobre tela, 48x60 cm cada tela. Fonte: Acervo do artista ............................................................................................................................................. 96 Figura 53: Cena de A Guerra dos Botões (1994) de John Roberts. Fonte: https://alchetron.com/War-of-the-Buttons-(1994-film)-29693-W ........................................ 97 Figura 54: Vista da exposição dentro do complexo penitenciário (2012), Clarissa Campelo. Fonte: Acervo da Artista .................................................................................................... 101 Figura 55: Recuperando posa ao lado de tela. (2012), Clarissa Campello. Fonte: Acervo da Artista ......................................................................................................................................... 103 Figura 56: Clarissa Campello, Itaitinga IPPOO II (2014), 139 x 101 cm.tinta automotiva s/ alumínio. Fonte: Acervo da Artista ...................................................................... 105 Figura 57: Fábio Baroli trabalhando em seu ateliê (2011). Fonte: Cortesia do artista. ............................................................................................................................................................................... 112 Figura 58: Clarissa Campelo com os Recuperandos do IPPOO II (2012) Fonte: Cortesia da artista. ....................................................................................................................................... 116 SUMÁRIO 1. Pintura e fotografia ..................................................................................... 20 1.1 Fotografia e pintura na arte contemporânea: o início no modernismo. ......... 21 1.2. Representação da figura humana na arte após The Marilyns Shots (1964) de Andy Warhol – comentários sobre sua influência. ................................................................ 32 1.3. Gerhard Richter e Eric Fischl: a pintura como uma forma para a fotografia. ....... 46 2. Fotografia e imagem.................................................................................... 69 2.1 A Imagem técnica como imago da vida................................................................. 70 2.2 A noção de Índice por Peirce e a noção “Isso-foi” por Barthes - o traço do real. . 77 3. O desejo de um indivíduo: estudos de caso de artistas brasileiros . ........ 87 3.1 Fábio Baroli, Vendeta: A Intifada. ......................................................................... 89 3.2 Clarissa Campello, Retratos................................................................................... 98 4. Considerações finais.................................................................................... 106 Referências Bibliográficas ......................................................................................... 108 Anexo I: entrevista com Fábio Baroli. ....................................................................... 112 Anexo II: entrevista com Clarissa Campello. ............................................................ 116 Glossário .................................................................................................................... 119 15 INTRODUÇÃO A presente pesquisa tem a intenção de estudar o processo criativo para se realizar uma pintura figurativa que tenha, em sua imagem, alguma ligação visual, significativa ou conceitual a uma determinada fotografia. Uma pintura cuja ideia pôde ser realizada através do estudo direto de fotografias autorais ou apropriadas em sua composição e conceito. Quando foi proposto esse tema, deparei-me com diversas questões: Quais os meios utilizados na escolha de uma foto que integrará o processo constitutivo de uma pintura? Como podemos identificar a função e valor da fotografia no trabalho de um artista que faz pintura? Assim como surgiram esses questionamentos, muitos outros foram aparecendo pelo caminho. Mas um ponto foi certeiro: a relevância dessas questões é alta, dada a carência de material específico sobre o assunto. Isso porque, muitas vezes, a ação de escolha, análise, reflexão e manipulação de uma fotografia permanece eclipsada pela produção final, a pintura, perdendo, de certo modo, sua importância. Entendo, portanto, que é necessária uma pesquisa que ultrapasse a comparação entre fotografia e pintura. Se faz necessário procurar na criação dessa o porquê de escolher uma fotografia para ser o ponto de partida de uma pintura e de que forma o artista interage com essa fotografia específica durante a produção pictórica. Para isso, o problema será dividido em seções específicas, pois, através da distinção dos assuntos, percebi que fica mais proveitoso e claro o entendimento de cada tópico, uma vez que esses acabam por abrir-se com outros assuntos dentro de cada nicho criado aqui. Cabe aqui testemunhar que sou artista visual e produzo pinturas usando fotografias autorais ou apropriadas como referência direta para meu trabalho. Sendo assim, o assunto dessa pesquisa é de grande interesse e paixão em minha trajetória acadêmica e de vida. Assim, a pesquisa se divide em três partes, são elas: O primeiro capítulo tratará da gênese do problema em plena arte moderna (o momento de embate entre imagem técnica e imagem manual), percebendo como a fotografia e a pintura acabaram por firmar-se independentemente após a crise inicial. Em seguida, utilizando reflexões de Arthur C. Danto, apresentaremos um estudo sobre as Marilyns de Andy Warhol, chegando à conclusão de como a imagem da figura 16 humana foi percebida e alterada naquele momento, mesmo após a existência desse icônico trabalho. Finalizo o capítulo colocando em foco a relação de criação, imagem, fotografia e pintura no trabalho de Gerhard Richter e Eric Fischl. O segundo capítulo será voltado para questões relativas à fotografia e imagem. Entender uma pintura é entender o que é a imagem de uma pintura, pois não estou aqui falando apenas de tradição, cores, pigmentos, linhas; é importante saber por que a imagem tem esta cor, esta figura, e de onde vem a ideia para criar aquela obra. Será ela vinda da memória, de uma visão real, de um modelo vivo esboçado ou de um registro fotográfico? Dito isto, concluo que as características de uma imagem contida em uma fotografia, que será a essência de uma futura pintura, são de total interesse e importância para o entendimento da obra. Assim, a primeira parte desse capítulo será afirmar a presença da imagem da fotografia como um traço do real, utilizando o conceito de Jacques Aumont, e em seguida traçar um comparativo da fotografia (imagem técnica que congela o tempo, fantasma) com uma Imago. A importância dessa etapa está justamente na necessidade de demarcar a fotografia usada de referência nas pinturas como um traço do real. Esse mesmo traço do real é pensado, em seguida, na imagem fotográfica e pintura com noção de índice de Charles S. Peirce e Phillip Dubois com o “Isso foi” barthesiano. Concluirei a pesquisa com estudos de caso da obra de dois artistas brasileiros que utilizam a pintura como sua principal linguagem. Por se tratarem de artistas jovens e em ascensão, o material que existe sobre suas produções ainda é parco. Por isso, tive a preferência de ir diretamente à fonte, fazendo entrevistas de modo a suscitar questionamentos sobre suas escolhas, dúvidas e possibilidades no momento da criação. Aumont (2005) afirma que, se tratando de imagem, existe um desejo de criação do indivíduo. Assim, tentarei entender como esse desejo surge, se manifesta e cria vínculos visuais e sensíveis com a imagem de modo a fazer ligações entre a fotografia e pintura. Explicito assim, os autores de referências para essa pesquisa e suas obras: A Imagem de Jacques Aumont, A Câmara Clara, de Roland Barthes, Após o fim da Arte – a arte contemporânea e os limites da história de Arthur C. Danto, Laura González Flores, Fotografia e Pintura – Dois meios diferentes?, O Ato Fotográfico de Philippe Dubois e Fotografia e Memória de Rogério Luiz Oliveira. Também serão referenciados trechos de diversos estudos sobre os assuntos e obras de referência de autoria de E.H. Gombrich e Giulio C. Argan. 17 Percebo, aqui nesse texto introdutório, uma necessidade de falar mais sobre o porquê dessa trajetória da pintura após o modernismo, a necessidade de inserir paralelos entre esses dois métodos de criar imagens. Farei isso, porém, sem entrar diretamente nos assuntos pautados pelos capítulos. A fotografia e uma parcela da pintura possuíram em comum, durante muito tempo, a visão objetiva como parâmetro, isto é, vontade e intenção de captar características de algo real e palpável que estivesse à frente de seus olhos e lhe servisse de objeto de atenção, podendo ser uma pessoa, um objeto ou uma paisagem. Porém, atualmente, essa característica não é mais uma regra e diversos fatores contribuíram para abrir margens para abstrações. Acontecimentos que salpicaram o século XX provocaram riso, escárnios, vanguardas, movimentos e manifestos; multiplicaram, intencionalmente ou não, as possibilidades de criação artística. A pintura, apesar disso, permanece usando mais ou menos os mesmos métodos de produção de pigmento, suporte, imprimação. Por outro lado, a fotografia está mais popular do que jamais se pensou que fosse possível, sendo agraciada a cada ano com novos instrumentos portentosos de captação de imagem, com qualidade e rapidez, servindo como principal mídia de produtos, novidades, personalidades e notícias. Imagino o que pensariam Niépce, Talbot e Daguerre sobre Smartphones com câmera, Instagram e outras ferramentas tão automáticas de fazer e publicar imagens, sendo que há menos de dois séculos atrás se aguardava pacientemente por até quatro horas para se ter um retrato automatizado por uma máquina. É um avanço muito grande em um curto período de tempo. Se pararmos para analisar, parece um pouco assustador essa rapidez vertiginosa com que a civilização contemporânea transformou seu modo de perceber o tempo e o espaço. Hoje, é possível estar no Japão e falar em tempo quase real com alguém na África. Há séculos atrás, mal se ouvia falar que existissem outros lugares que não fosse a aldeia que cercava o indivíduo. Naquele momento, eram usados diversos métodos em um grupo para poder comunicar através das imagens o que existia alhures. O principal deles era a gravura, eleito favorito no lugar do desenho, devido à facilidade em reproduzi-lo, o baixo custo de sua produção e, consequentemente, de venda. Era comum fabricarem cartões postais em forma de gravuras e iluminá-los com aquarela, conhecer um lugar via imagem, saber suas características visualmente. Devemos levar em conta, porém, que isso era atravessado pela habilidade e vontade do artista, podendo assim criar trabalhos que fossem quase cópias fieis da realidade, como o rinoceronte de Dürer, 18 ou que não tivessem absolutamente nada em comum com aquele motivo que estava sendo vendido. Assim, a noção do que é similar ao real e o que não é foi sendo cada vez mais motivo de estudo e pesquisa. O daguerreótipo orgulhava-se de criar imagens tão semelhantes à pessoa que ele foi comprado pelo governo francês e vendido como aparelhos portáteis para um grande grupo de indivíduos no ano de 1839. Dados os acontecimentos que se desenrolaram a partir de então, muitos artistas que trabalhavam com pintura de retratos ou tinham essa tradição na família, se sentiram tentados (quase forçados) a vislumbrar outras possibilidades. Assim, vieram os movimentos de vanguarda: Realismo, Impressionismo, Fauvismo, Cubismo, Futurismo, criando uma tradição de vanguardas – como cita Antoine Compagnon (Os cinco paradoxos da modernidade, 1994), as vanguardas são anti-tradicionais – e plantando as sementes que geraram frutos que o futuro tanto colhe – como as maçãs de Cézanne! Como a intenção é falar dessas questões entre fotografia e pintura que tiveram início no modernismo, não me debruçarei sobre querelas e questões sobre qual tem mais valor, pois essas se repercutirão eternamente e já tiveram tantos capítulos históricos quanto possível; pinçaremos momentos pontuais que marcaram a arte moderna e depois faremos um salto até a Pop Art americana. Apesar de existirem muitas etapas de valor durante esses períodos, preferi privilegiar aqueles em que as relações fotografia, imagem, pintura e visão objetiva mais estiveram condensadas nas citadas obras de arte. Portanto, faço assim uma eleição de momentos e saltos históricos necessários, pois a intenção aqui não é recriar uma história da arte e pintura ocidental a partir da fotografia, mas sim, focar na questão utilizando obras significativas escolhidas como estudos de caso, que ilustrarão melhor essa ideia, bem como fornecem material para reflexão. Também é importante saber que as obras escolhidas possuem relação com a tradição da pintura de diversas formas, da mais visível a mais sutil, e isso será também inserido nas análises sempre que possível. Uma vez colocadas as reflexões sobre a Pop Art americana, falarei do trabalho de Gerhard Richter e Eric Fischl, como citado. O porquê dessa escolha é a longeva carreira de ambos e o enorme acervo de trabalhos produzidos. Ambos são sobreviventes de altos e baixos do mercado artístico e produzem, cada um a seu modo, conexões entre fotografia e pintura. Os artistas em questão criam e elaboram suas obras utilizando esses dois métodos, sejam com figurações ou abstracionismos. 19 Pela necessidade citada no começo de nosso texto (de entender mais sobre os significados da imagem-fotografia), creio que as tentativas de resposta no segundo capítulo servirão também para identificar chaves de esclarecimento para saltarmos então para os artistas brasileiros nos estudos de caso no terceiro capítulo. São eles: Fábio Baroli e Clarissa Campello. Por meio dessa abordagem, será possível esclarecer diversos pontos de afirmação na importância da imagem fotográfica como auxilio técnico e criativo na produção dos artistas citados, podendo ser fotografia como registro autoral, objeto de apropriação, colagem/recorte ou performance fotografada. Em Baroli, entra em cena algo mais popular, brejeiro, brasileiro: crianças interagem com o espectador na série Vendeta: A Intifada, trazendo à superfície pintada da tela a memória de brincadeiras de rua. Enquanto Campello vai ao fundo da recordação de um sujeito marginalizado, na série Retratos, usando como referência à pinturas fotos pessoais contidas nos poucos objetos que os recuperandos1 do IPPO II portam. Finalizando a pesquisa, se encontram em anexo duas curtas entrevistas com Baroli e Campello. 1 É assim que os internos do Instituto Presídio Professor Olavo Oliveira II são chamados. 20 1. Pintura e fotografia Toda a arte moderna é influenciada, positiva ou negativamente, pelo desenvolvimento contemporâneo das técnicas industriais, no entanto, a relação é infinitamente mais tensa e complexa quando a arte figurativa se depara com a técnica de produção industrial de imagens, a fotografia (ARGAN, 2010, p. 462). A pintura é uma das mais antigas manifestações culturais da civilização humana. Sua evolução técnica, tanto relativa a pigmentos e substâncias aglutinantes, como ao desenho, em determinadas épocas buscando uma anatomia perfeita, foi de grande importância para a própria história das sociedades humanas. Além do papel narrativo que essas imagens possuíam, elas foram marcas na história de reis e rainhas, sinais de devoção e muitas vezes serviram de testemunho de fatos importantes. Mas não é minha intenção fazer a retrospectiva de uma história da pintura, apenas realizar uma reflexão de sua relação com a fotografia, uma relação importante nas modificações culturais que ocorreram no período moderno, criando novas formas de trabalhar uma pintura figurativa. Para falar de pintura e fotografia é necessário elencar com atenção os exemplos e artistas para que eles façam sentido com as questões suscitadas pela pesquisa, é através deles que chegaremos às soluções. Tentarei assim direcionar o pensamento aos que são relevantes para o tema, porém, levando em conta a cronologia dos fatos. Como prólogo às questões que se desenvolvem na arte contemporânea, é necessária uma rápida visita ao passado, para percebermos como no início da arte moderna os pintores se relacionaram com a fotografia de forma livre e instrumental. Esse momento será breve e sucedendo será visto como a fotografia teve influência na arte do século seguinte. Datarei, portanto, o início da pesquisa no ano de 1830, pois é nesse momento que ocorre o advento da fotografia, a partir desse momento se desdobram os fatos que interessam a abordagem proposta nesta pesquisa. 21 1.1 Fotografia e pintura na arte contemporânea: o início no modernismo. Quando em 1850 Gustave Courbet iniciou o movimento chamado Realismo, a fotografia já estava presente na história. Por mais distante que pareça esse ano de nossa atual realidade, é nele que encontramos as origens de grandes mudanças que se deram daí para frente. Courbet vivenciou revoluções políticas e sociais, mas a maior das revoluções vistas por ele e por seus contemporâneos foi o advento e aprimoramento da fotografia, sendo o primeiro dispositivo portátil de fixar imagens chamado de Daguerreótipo. Esse instrumento revolucionário foi aprimorado por estudos de Nicéphore Niépce, W.H.F. Talbot e Louis Daguerre entre 1835 e 1839, obtendo sucesso na fixação da imagem por meios químicos. Seu êxito se devia ao fato de ser um processo bastante rápido e duradouro, porém, de reprodução limitada – ou seja, não possuía negativo, e gerava uma imagem fixada única. Os direitos de fabricação desse dispositivo foram comprados pelo governo francês e posto à venda para a população em unidades limitadas (Figura 1). Figura 1: Daguerreótipo, modelo vendido pelo governo da França em 1860. Fonte: http://www.resumofotografico.com/2011/09/maquina-do-tempo-daguerreotipo.html 22 O Daguerreótipo foi desenvolvido com mais tecnologia, acelerando o tempo de exposição e fixação da imagem. Com o daguerreótipo, muitas modificações ocorreram na forma como a sociedade enxergava a imagem. Mas, ele não foi o primeiro aparelho fotográfico. Inicialmente, a fotografia era de lenta produção, de forma que o modelo precisava ficar posando, quase imóvel por várias horas, do mesmo modo que estivesse diante de um pintor, esse realizando seu retrato de observação. O Daguerreótipo, em contrapartida, rapidamente imprimia de forma única em uma chapa de metal uma imagem. Dessa forma, obtinha-se um registro quase automático do que estivesse diante dele (Figura 2). Apesar do mecanismo, ele dependia de um operador para funcionar corretamente. Argan afirma (1988, p. 79) que o olho da objetiva não é neutro, assim como não era o olho do artista que pintava retratos. Dito isso, entende-se que a ação do registro não se restringia a apertar um botão, deve-se levar em conta que o fotógrafo decide sobre luz, composição, contrastes, foco, recorte. Nesse momento, a noção de criar imagens estava se expandindo, não sendo mais uma imagem puramente manual, mas sim, uma imagem técnica, com uma série de leis próprias que inicialmente não se tinha muito controle ou escolha. Figura 2: Jean-Baptiste Sabatier-Blot, Retrato de Louis Daguerre (1844), 9.1 x 6.9 cm, Daguerreótipo. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Louis_Daguerre 23 Se observarmos a imagem do retrato de Daguerre (Figura 2), perceberemos que ela está distante de ter semelhanças com a visão objetiva da pessoa humana; a cor da pele não possui semelhança real, a paleta de tons é reduzida à cinzas, pois assim funcionava o aparelho. Ou seja, representava o sujeito mas ao mesmo tempo estava distante do retrato característico das imagens tradicionais que até então era onde a pintura ainda se resguardava. Por isso costumava-se pintar por cima de fotografias, mesmo quando essas começaram a ser impressas em papel, alguns anos depois. As características visuais da imagem fotográfica (que nesse momento tentava criar uma identidade própria e se afirmar como arte) eram ainda emprestadas da imagem de retratos de pinturas clássicas, com poses tradicionais (que eram necessárias devido ao tempo de exposição da fotografia), tendo em si a missão de eternizar momentos, o que outrora era a agenda da pintura. De acordo com Susan Sontag, “a subsequente industrialização da tecnologia da câmera apenas cumpriu uma promessa inerente à fotografia, desde o seu início: democratizar todas as experiências ao traduzi-las em imagens.” (2004, p. 11) Assim, o pintor de ofício perdeu parte de seu propósito, dividindo a classe em dois segmentos: alguns, do grupo dos impressionistas, como Claude Monet, Edgar Manet e Camille Pissarro celebravam as benesses da fotografia, enquanto outros ligados ao movimento simbolista, como Gustave Moreau, refutavam a modernidade e não se adaptaram de forma positiva as mudanças. Gombrich (2006, p. 403) afirma que antes “o pintor era alguem capaz de derrotar a natureza transitória das coisas e preservar para a posteridade o aspecto de qualquer objeto”. Com o advento da foto, isso mudou: “Foi um golpe para a situação dos artistas, tão duro quanto a abolição das imagens religiosas por parte do protestantismo” (GOMBRICH, 2006, p. 403). Mas mudanças são necessárias, é algo importante para gerar novas possibilidade, e ele conclui: “Com efeito, a arte moderna dificilmente teria chegado aonde chegou sem o impacto desse invento” (GOMBRICH, 2006, p. 404). Cito aqui Sontag, pois nesta reflexão a autora atesta o que aconteceu de forma quase previsível, ou seja, através das modificações nos trabalhos dos artistas daquela epoca já era possível notar uma vontade de ir além do até então estilo tradicional: A modalidade mais influente dessa atitude se encontra na pintura, a arte que a fotografia ultrapassou sem nenhum remorso e plagiou com entusiasmo 24 desde o início, e com a qual ainda coexiste em uma rivalidade febril. Segundo a versão habitual, a fotografia usurpou a tarefa do pintor de fornecer imagens que transcrevessem a realidade de modo acurado. Por isso, ‘o pintor devia ser profundamente grato’, insiste Weston, e ver essa usurpação, como fizeram muitos fotógrafos antes e depois dele, como uma libertação, na verdade. Ao tomar para si a tarefa de retratar de forma realista, tarefa que era até então um monopólio da pintura, a fotografia liberou a pintura para a sua grande vocação modernista — a abstração. Mas o impacto da fotografia na pintura não foi tão claramente delimitado. Pois, quando a fotografia entrou em cena, a pintura já estava começando, por conta própria, sua lenta retirada do terreno da representação realista — Turner nasceu em 1775; Fox Talbot, em 1800 —, e o território que a fotografia veio a ocupar com um sucesso tão rápido e completo provavelmente teria sido abandonado de um modo ou de outro. (2004, p. 57) Quando Courbet em 1850 notou que a fotografia poderia auxiliar em seu trabalho com uma característica que ele tanto buscava – pintar o que está diante dos olhos, fixar um acontecimento cotidiano, imediatismo – fez uso dela sem receio. O fotógrafo Julien Vallou cedeu a Courbet algumas imagens técnicas (criadas com o uso do daguerreótipo) e esse soube tirar partido das imagens fixadas como referência para a pintura, notando que poderia utilizar os elementos que lhe interessassem e alterar o restante. Em As Banhistas (Figura 3) é possível observar semelhanças com a imagem de Vallou (Figura 4). Figura 3: Gustave Courbet, As banhistas, (1853), óleo s/ tela, 227x193 cm. Fonte: http://www.gustave-courbet.com/the-bathers.jsp 25 Figura 4: Julien Vallou de Villeneuve. Étude d'après nature, nu n°1906 (1853) fotografia. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Julien_Vallou_de_Villeneuve Inseri as duas imagens para verificar como rapidamente se tornou uma prática comum utilizar fotografias para observação e criação de pinturas. Nesse momento isso ainda era feito de forma instrumental e acessória. Desse modo, o trabalho poderia sofrer modificações por esboços, mas o original fotográfico era praticamente livre de interferência, podendo, ainda, ser fruto de encenações. O Realismo propunha uma acepção crua do real, mas, percebamos como seguir à risca essa ideia não foi uma missão sem influências da fotografia. A noção do termo realismo, de acordo com Aumont (1990, p. 219), está ligada à visão objetiva. Ele aponta que só pode haver realismo em culturas que prezam pela semelhança e representação das noções do real, que lhe atribuem devida importância. Essa foi uma característica majoritária no gosto da sociedade europeia no século XIX; se antes, no período medieval, eles ainda não almejavam essa semelhança com o real, após os triunfos da Renascença, o poder de criar semelhanças e boas representações foram matrizes principais de sucesso para um artista. Porém a fotografia surgiu e modificou a visão de como os artistas do movimento impressionista retratavam o mundo e a pintura em si. 26 Argan (2010, p. 411) afirma que “A rapidez da tomada e da realização pictórica marca ponto a favor na comparação já inevitável com as técnicas mecânicas, especialmente com a fotografia”. Os limites se diluíram e a pintura foi francamente influenciada pela foto, esta, tornou-se popular e mais um instrumento de trabalho para os artistas. Os impressionistas logo perceberam que seria de grande utilidade ter um registro automático para usar como auxiliar na pintura (no lugar de ficar fazendo esboços). O ímpeto era pintar o que se via (mas não se pode congelar o que se vê. Na verdade, a máquina fotográfica é uma nova forma de enxergar o mundo). Portanto, para realizar pinturas baseadas em algo que se vê, e não se controla, como na obra O absinto (1876) de Edgard Degas (Figura 5), o artista se utiliza do aparato fotográfico. Argan cita em Arte Moderna: Eis como funciona a sua máquina de captação, eis a estrutura do fotograma. Uma grande parte do quadro é ocupada pela perspectiva enviesada, com um abrupto desvio em ângulo agudo, das mesinhas de mármore. Entra-se no quadro por este rumo imposto, como se estivéssemos pessoalmente naquele café numa das mesinhas (ARGAN, 2013, p. 109) Figura 5: Edgar Degas , O Absinto (1873), Óleo sobre tela, 92 × 68,5 cm. Fonte: http://www.musee-orsay.fr/en/collections/works-in-focus/search/commentaire_id/in-a-cafe- 2234.html 27 Diversas foram as mudanças que o aparelho fotográfico proporcionou, criando uma nova profissão. Com a fotografia presente na vida do cidadão moderno, “A memória já não tem vez na arte” (ARGAN, 2010, p. 411). Talvez ele tenha se referido aqui ao ato de pintar usando detalhes que ficaram apenas rapidamente diante dos olhos, problema que a fotografia veio ajudar a solucionar. Édouard Manet também foi um dos precursores da arte moderna. Foram seus quadros os que mais inspiraram o grupo dos impressionistas e também viraram alvo de escárnio e revolta da população. O autor afirma que Manet esteve na Itália entre 1853 e 1856 (ARGAN, 2010 p. 418), observando obras, tendo notado várias possibilidades de revival dos mestres do passado. Inspirado pelo realismo de Courbet, Manet buscou formas mais livres de passar para a tela o que via sem obrigação direta com a realidade e se provendo de liberdade para criar e reinventar referências. Assim, em suas incursões pela Itália e pela própria França entre 1853 e 1856, o artista fez cópias da Vênus de Urbino (1538) de Ticiano, observou atentamente Concerto campestre de 1510 (Figura 7, Atribuído a Giorgione, e atualmente, a Ticiano) no Louvre, ainda uma gravura de Rafael, que por sua vez havia inspirado Marcantonio Raimondi em 1515 (Figura 6). Essas últimas obras citadas criaram um revival em Manet, motivando a composição de Almoço na relva (Figura 8) e a Vênus de Urbino, para Olympia. Figura 6: Giorgione ou Ticiano, Concerto campestre (1510), óleo sobre tela,110 × 138 cm. Fonte: http://www.louvre.fr/en/oeuvre-notices/pastoral-concert 28 Figura 7: Marcantonio após Rafael, O Julgamento de Paris, (1515), gravura (detalhe). Fonte: http://www.metmuseum.org/toah/works -of-art/19.74.1/ O que estava acontecendo poderia ser chamado de apropriação, porém, não de forma pensada e planejada, mas sim, a criação de um trabalho inspirado em uma ou mais imagens de outros trabalhos, assim, chamarei de inspiração/apropriação. Manet se inspirava no passado e no presente. Assim, é possível afirmar que Manet fazia o revival do clássico e pintava o realismo, mas de maneira mais suave e também mais livre. Em Almoço na relva, há a presença da figura feminina nua que vai além da representação ou narrativa. De acordo com Argan (2010, p. 420) ela cria um paralelo com a obra de Courbet intitulada O ateliê do pintor, de 1855, onde a mulher nua é uma alegoria da própria pintura, sendo essa uma obra paradigmática que dialoga com a própria situação histórica da pintura. A narrativa, presente na história da arte até então tradicional na Europa, não deixou de existir, apenas mudou de função. Aumont (1990, p. 254) afirma que “a imagem representativa portanto costuma ser uma imagem narrativa, mesmo que o acontecimento contado seja de pouca amplitude.” Partindo dessa perspectiva, não se pode dizer que o conteúdo de um Manet é o mesmo de um Caravaggio. Ambos comunicam algo, porém, em Caravaggio as narrativas em geral possuíam o vulto sacro, enquanto que em Manet, os elementos corriqueiros serviam de base para a história da tela, ainda que houvesse composição em obras históricas. 29 Figura 8: Édouard Manet, Almoço na relva (1862-63), óleo s/ tela, 208 × 264 cm. Fonte: http://www.musee-orsay.fr/fr/collections/oeuvres-commentees/recherche/commentaire_id/le- dejeuner-sur-lherbe-7123.html?no_cache=1 Em Almoço na relva Manet utiliza-se de referências históricas e, ao mesmo tempo, atuais - “O quadro tem uma atitude fotográfica” (ARGAN, 2010, p. 420) . Outra marca da imagem técnica nessa obra é o fato de o segundo plano parecer tão próximo do primeiro, assemelhando-se assim a uma montagem, a mesma impressão que temos em As Banhistas de Courbet. Além de outros fatores marcantes: O valores tonais possuem alto contraste e baixa definição do fundo (podendo ser como citado, um cenário ou mesmo uma cena real deformada, visto que os daguerreótipos não captavam bem a profundidade de campo, dando aparência chapada). A câmera surpreendeu os artistas pois captava detalhes mais rapidamente que o olho humano, sem jamais substituí- lo, criando um novo campo 30 Figura 9: Théodore Géricault, O Derby em Epsom, (1821), óleo sobre tela, 91 × 122 cm. Fonte: http://www.wga.hu/html_m/g/gericaul/1/111geric.html Não foi somente a partir desse momento que os artistas começaram a se interessar pela vida comum (basta lembrar das telas de tema doméstico de Johannes Vermeer e Pieter Bruegel realizadas muitos anos antes) 2 . Mas pode-se afirmar que a fotografia proporcionou um caráter mais investigativo ao que acontecia. Muitos dos elementos retratados eram ignorados ou feitos de forma errônea, pois o olho humano não capta detalhes que acontecem em milésimos de segundo. Esse foi outro ponto proporcionado pela fotografia, como no caso dos cavalos de Géricault (Figura 9) que eram constantemente representados correndo em espacate. Após experimentos de Muybridge em 1878 (Figura 10), foi verificado que essa posição era anatomicamente impossível, a não ser se o animal estivesse com a pernas quebradas. Assim, características naturais de coisas e pessoas foram abrindo os olhos dos pintores e facilitaram a criação e captação de cenas em movimento, ampliando a gama de inspiração dos impressionistas (Assim como O baile no moulin de la Galette, de Renoir e Dança no Moulin Rouge, de Toulouse-Lautrec. Ambos retratam cenas de grande movimento que tornaram-se possíveis de pintar com o auxílio do dispositivo fotográfico automático). 2 T. J. Clark chama o Impressionismo de “pintura da vida moderna”, título de seu livro, o que aponta a prazerosa vivência de uma burguesia urbana na atmosfera pública como o tema dos pintores. 31 Figura 10: Eadweard Muybridge, O Cavalo em Movimento, (1878) Fotografia. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:The_Horse_in_Motion.jpg A fotografia foi, como Aumont define baseado em teorias de André Bazin (2014, p. 208-209), o fim da necessidade de ilusão (alegoria, mística cristã, perspectiva matemática artificial que transformava o plano em profundidade) e início da expressão pura (expressão concreta e essencial do mundo) “A fotografia fez com que a pintura se libertasse da semelhança, na medida em que satisfez mecanicamente o desejo de ilusão: a foto é essencialmente, ontologicamente 3 , objetiva – logo, mais crível do que a pintura.” (AUMONT, 2014, p. 209). Nesse caso, estou pensando na imagem fotográfica como documental, ainda sem a potencialidade artística que ela veio a ganhar. Poderia continuar apontando dados como esses em outras obras de Edgard Degas (como as bailarinas), de Toulouse-Lautrec e outros artistas, que fizeram uso da imagem técnica para auxiliar sua criação e, consequentemente, analisar de que forma seu trabalho foi influenciado pelas possibilidades de indagações quanto a cores e luz de forma científica, como no caso de Georges Seurat. Mas, evitanto estender assuntos de caráter introdutório, portanto com esses dados encerro a presença dos impressionistas na pesquisa e avançaremos alguns anos. 3 Grifos do Autor 32 1.2. Representação da figura humana na arte após The Marilyns Shots (1964) de Andy Warhol – comentários sobre sua influência. Falarei agora da sequência dada à produção de pinturas após o modernismo, focando no trabalho de Andy Warhol e em seguida tecendo comentários acerca do modo com o qual eles influenciaram outros artistas, Comecemos então por relembrar um episódio marcante no mundo, na década de 1960. Quando, com um choro comovido, a nação americana despediu-se da personagem Marilyn Monroe, enterrando o corpo de sua protagonista, Andy Warhol fez o melhor que poderia fazer para consagra-la: havia “embalsamando-a”, criado seu Imago, e a transformando assim em algo não mortal, incluindo o douramento com folha de ouro no fundo do trabalho. Arthur C. Danto utiliza o termo transfiguração para definir essa passagem da realidade para a imagem, do comum para o fantasioso, assim como aconteceu com Cristo em sua Ascensão: “A transfiguração é um conceito religioso. Significa adoração do comum [...] ela significava adorar um homem como a um deus.” (DANTO, 2006, p. 142-143). Quando pensamos coletivamente nas serigrafias de Warhol com a imagem de Monroe, é possível categorizá-las no mesmo patamar em que se encontra A Monalisa no século XIX. A obra se tornou um um ícone na cultura ocidental e em grande parte da Europa, sendo adorada por multidões e criando em torno de si uma magia inexplicável. O objetivo de Warhol era perseguir e alcançar a celebridade. Ele percebeu que para ser, deveria fingir, assim como a própria Marilyn Monroe. Ela foi uma atriz e cantora mediana, de grande beleza, também construída com artifícios. Projetando uma imagem ideal, ela seduziu e transformou sua figura em lugar comum; a frequência de filmes em que a atriz atuou foi constante, seu rosto estampava jornais e revistas. Sua imagem avia se descolado da pessoa real que interpretava esse personagem que a esgotava, e foi essa imagem que Warhol usou. Não a pessoa por trás da máscara, mas a própria Marilyn em seu esplendor e poder. A atriz faleceu, contudo, a imagem como costuma acontecer permaneceu. Danto afirma (2006, p. 134) que, em 1964, a arte americana havia ganhado grande destaque no mundo naquele momento, estando dividida por estilos individuais 33 e não mais movimentos, ela havia passado de uma era à outra: encerrava-se o moderno e iniciava-se o contemporâneo, como é citado pelo autor ao ver as Brillo Box. Não deixou-se de fazer pintura figurativa, mesmo no auge do expressionismo abstrato, essa existia em uma frequência mais baixa e de certa forma marginalizada. Andy Warhol percebeu como a imagem foi diluída nas mídias de televisão e imprensa percebendo que esse era mais uma temática possível para seus trabalhos. Danto afirma que em 1964 a arte americana, principalmente representada pela abstração, havia ganhado grande destaque no mundo naquele momento, estava dividida por estilos mais individuais e não mais movimentos, e havia passado de uma Era à outra: encerrava-se o moderno e iniciava-se o contemporâneo como é citado pelo autor ao ver as Brillo Box. Não deixou-se de fazer pintura figurativa, mesmo no auge do Expressionismo Abstrato; essa existia em uma frequência mais baixa e de certa forma marginalizada. Andy Warhol percebeu como a imagem foi diluída nas mídias de televisão e imprensa e percebeu que esse era mais uma temática possível para seus trabalhos. Warhol se aproximou de celebridades e buscou usar como inspiração faces de atrizes de cinema e mulheres da sociedade, que tinham cenas de suas vidas transpostas para os jornais. A fotografia não era só mais um veículo experimental: para a mídia, principalmente naquele momento, ela trabalhava em nome de propagação de informação em massa. É possível entender como isso ocorreu, nesse caso, observando o processo pelo qual Monroe passou: deixou de ser realidade e se transformou em imagem. As celebridades nesse momento estavam no auge da publicidade, superproduções cinematográficas, era de ouro hollywoodiana, capas de revista, fotos autografadas. Na arte esse processo de descolamento do real se deu principalmente pela conversão de uma imagem de visão objetiva em uma imagem técnica fotográfica. Posteriormente, tornou-se uma serigrafia de Warhol, que visualmente se assemelha com uma pintura, mas possui tons chapados, sem o gesto do artista. A própria imagem de Marilyn, que foi usada para inspiração no icônico trabalho, foi retirada de um conjunto de imagens em que os atores posavam, do filme Niagara, de 1953 (Figura 11): 34 Figura 11: Marilyn Monroe (1953) Foto arquivo do filme Niágara. Fonte: https://www.moma.org/learn/moma_learn ing/andy-warhol-gold-marilyn-monroe-1962 O conjunto específico de imagens nas quais vou me referir aqui é o The Shot Marilyns. Essa série foi uma das primeiras que Warhol criou utilizando o processo de serigrafia, não muito popular como método de expressão artística. No trecho seguinte o artista explica o modo com o qual ele trabalhava e como criou essa série: Com serigrafia você escolhe uma fotografia, estoura (aumenta o contraste e o as dimensões), transfere com cola na seda e então passa a tinta através e ela vai através da seda mas não da cola. (...) Quando aconteceu de Marilyn Monroe falecer aquele mês, eu tive a ideia de fazer telas do belo rosto das primeiras Marilyns.4 As fotografias das celebridades estavam disponíveis em diversos lugares e através da apropriação Warhol obteve a imagem inicial para construir esse trabalho. 4 Tradução livre, original em inglês: “With silkscreening you pick a photograph, blow it up, transfer it in glue onto silk, and then roll ink across it so the ink goes through the silk but not through the glue. (…) When Marilyn Monroe happened to die that month, I got the idea to make screens of her beautiful face the first Marilyns.” (WARHOL apud DOUMA, 1980, p. 65) 35 Figura 12: Andy Warhol, The Marilyn Shots (Fundo azul), (1964), serigrafia, 65x71cm. Fonte: http://warholessays.tumblr.com/post/86782932030/shot-light-blue-marilyn-1964-this-is-a- painting A série The Shot Marilyns possui esse nome porque logo após o seu desenvolvimento em 1964, uma das frequentadoras da Factory 5 , Dorothy Podber, artista e feminista, foi até lá, sacou uma pequena pistola e atirou nas serigrafias que ali jaziam, criando uma marca na testa da figura6 (Figura 12). Hal Foster afirma que a pessoa (ou a persona) de Warhol constantemente fazia afirmativas que davam a entender que ele buscava a todo o momento bloquear seus sentimentos e sentidos, a ponto de afirmar que queria ser uma máquina e gostava que as coisas fossem sempre as mesmas, repetidamente (FOSTER, 2014, p. 126), unindo isso aos conceitos de trauma de Lacan (o trauma se dá após a vivência do choque, sendo causado pela iminência daquele episódio se repetir). Assim, ao repetir muitas vezes 5 A Factory foi o estúdio de Andy Warhol que funcionou em três locais diferentes em Manhattan, entre 1962 e 1984 6 http://www.telegraph.co.uk/news/obituaries/1579445/Dorothy-Podber.html 36 uma cena de tragédias de celebridades falecidas ou de cadeiras elétricas através de impressões serigráficas, Warhol busca a dessensibilização através da repetição (Wiederholen), que é de fato um caminho sem volta para os sentidos (como é ilustrado no filme Laranja Mecânica de Stanley Kubrick, 1971, onde o protagonista agressor é exposto repetidas horas a cenas de tortura e violência para ser educado através do trauma). Esse fenômeno é chamado por Foster de Realismo Traumático (FOSTER, 2014, p. 128). Assim, em Warhol, a repetição do instante pregnante7 da morte é repetida para perder sua força, mas em contrapartida, nós nos tornamos insensíveis a ela. Além disso, Foster descreve como é possível (usando o conceito de Lacan) interpretarmos a imagem como um objeto que nos olha, ou seja, que devolve nosso olhar no momento em que nos colocamos a fitar aquela imagem (FOSTER, 2014, p. 134). Olhamos para a morte e ela nos olha de volta, como o reflexo de narciso. A imagem que partira do registro de uma celebridade que construíra cuidadosamente sua personagem, diferentemente da imagem de Victorine Meurent de Manet, choca, mas com impacto semelhante. Monroe era também uma mulher de muitos homens, e muitos a rechaçavam por isso, sendo um ponto que devia de fato incomodar o movimento feminista que na época era bastante radical nos Estados Unidos. Esse fato representa o poder de comunicação e significação da imagem, sempre ligada à interpretação individual, podendo causar as mais diversas emoções e reações. É difícil mensurar o tamanho da influência de Andy Warhol e de Marilyn Monroe nos anos seguintes ao advento da fama de ambos. Criarei aqui referências pontuais de pintura que ecoaram esse fenômeno. Citarei aqui a obra Dead Marilyn, de Marlene Dumas. A artista sul-africana diz que a obra foi criada para fazer parte de uma exposição nos Estados Unidos. Dumas sempre ouvia dizer que os artistas americanos faziam grandes pinturas e ela queria também fazer uma grande pintura. Afirma ainda que essa foi uma forma de lidar com o falecimento de sua própria mãe. O registro da imagem de Marilyn Monroe morta em cinco de agosto de 1962 (Figura 13) estava em seus arquivos, a artista acreditou que usar aquele registro para fazer uma pintura para a exposição na América, uma vez que essa tinha a temática da morte, seria uma forma de trabalhar seu próprio luto. Dumas 7 Instante pregnante é o momento definido como uma imagem que represente todo um acontecimento, exprimrindo sua essência. Conceito de Gotthold-Eprhaim Lessin, descito por Jacques Aumont em A Imagem p. 241. 37 cita que escolhe suas imagens para trabalhar de forma que elas causem certo medo e tensão em si própria. Ela afirma que esse trabalho é um retrato da morte, é um retrato de Marilyn Monroe e também, de uma Era. Figura 13: Marilyn Monroe Morta em sua casa (1962), Registro fotográfico jornalístico. Fonte: http://www.celebritymorgue.com/marilyn-monroe/ Nesta exposição de Dumas realizada em 2008 no MoMA em Nova York, intitulada Measuring my own grave, temos uma série de trabalhos que tratam do tema da morte. Foi lançado um catálogo com textos de diversos críticos de arte (BLUTLER, 2008), e elenquei aqui algumas reflexões de Richard Shiff para colocar mais luz sobre o trabalho da artista e sua ligação com a fotografia. Dumas utiliza essa fotografia registro de Marilyn para a criação de sua obra Dead Marilyn (Figura 14). Seu trabalho com imagens atesta essa característica de memento mori implícita na fotografia, o problema do passado registrado, do que se foi e permaneceu em imagem. De acordo com DUBOIS: O processo que faz a fotografia ser carrega em si mesmo sua própria morte. Se quisermos evitar essa autoconsumação, se quisermos que a imagem se conserve, é preciso parar, é preciso encontrar o meio de interromper o movimento antes de seu termo: é preciso congelar o próprio processo. [...] a fotografia jamais cessou de ser trabalhada pelo problema do tempo. Ela o fixa. Parada sobre a imagem. Sombra petrificada. Mumificação do índice. 8 (DUBOIS, 2014, p. 139) Mesmo uma fotografia tirada neste segundo será velha (passado) no segundo seguinte. A pintura, porém carrega um traço mais atemporal e menos ligado 8 Grifos do autor 38 materialmente com o que foi, não sendo testemunha temporal como a foto é. A Marilyn de Dumas, em tons de azul e cinza cromático, muito diferente da explosão de cores Pop, está morta, lidando com a fragilidade da vida e evocando, assim como a obra de Warhol, a transitoriedade humana através de imagens. De acordo com Flores, “O percepto e a imagem existem apenas como instantes; sua materialização mediante a fotografia e a memória é uma luta contra o tempo e a morte”. (FLORES, 2011, p. 125). Isso é devido ao fato de a fotografia ser como um espectro, um fragmento do tempo, como nossa mirada no espelho: ela está ali apenas até o momento em que saímos da frente dele e não vemos mais nosso duplo não fixado. Como o reflexo, a fotografia é um “Isso-foi” 9 (BARTHES, 2012, p. 72), característica da imagem técnica que determina que algo esteve em frente à objetiva, esteve ali, e não está mais, restando apenas a memória.10 Figura 14: Marlene Dumas, Dead Marilyn, (2008), óleo sobre tela, 40 x 50 cm. Fonte: http://withreferencetodeath.philippocock.net/blog/dumas -marlene-dead-marilyn-2008/ 9 Grifos do autor. 10 Esse assunto será mais explorado no capítulo dois. 39 Ao mesmo tempo há o fator determinante de gestualidade, tempo dispendido, e técnica mais ou menos refinada que diferencia a pintura da foto. Há uma frase da artista: “Você não pode TIRAR uma pintura – você FAZ uma pintura”11. Ou seja, diferente da fotografia, a pintura envolve o fazer, o ato de manipular uma matéria e criar uma imagem. Assim novamente corrobora-se a ideia dos dois atos que possuem naturezas diferentes e trabalham juntos de forma concomitante, como podemos verificar na obra dessa artista. Aqui, Shiff descreve concisamente a forma de trabalho de Dumas: Dumas encontra seus modelos para pintura em fotografias - geralmente imagens de imprensa ou publicidade, ou como as frequentes Polaroids que ela tira da família e amigos. Transformando essas imagens, ela refaz a tomada. Sua distinção entre fazer (fazer uma decisão, alterando estados das coisas) e tomar/pegar (assumindo um significado, aceitando uma dada identidade) desempenha um entendimento comum refletido na linguagem coloquial: ao invés de fazer, nós 'tomamos' uma imagem fotográfica convencional. 'Se você tira uma fotografia, sempre há algo na sua frente' Dumas explica; 'mas com a pintura não há nada'.12 Seu trabalho é movido por imagens reconfiguradas, sempre partindo de fotografias apropriadas ou autorais. Independente disso, elas acabam por se descolar do significado primário vindo a tornar-se um objeto autônomo. Isto é, ainda que a imagem esteja ligada inicialmente à fotografia, por semelhança, o significado e a mensagem que é comunicada não configura necessariamente a mesma que a da foto. Nesse contexto de apropriações, pode ocorrer de uma mesma imagem servir de inspiração para dois artistas. Foi o que aconteceu no caso de uma fotografia publicada na revista Stern em 1976. A terrorista alemã Ulrike Meinhof (Grupo RAF13 ou Baader- Meinhof) é encontrada morta na cela de número 719 na prisão de Stuttgart-Stammheim, provavelmente resultado de suicídio através de enforcamento. 11 Tradução livre, original em inglês: “You can't TAKE a painting - you MAKE a painting.” (DUMAS apud Richard Shiff em BUTLER, 2008). 12 Tradução livre, original em inglês: Dumas finds her models for painting in photographs – usually press or publicity images, or just as often Polaroids that she takes of family and friends. Transforming these images, she remakes the taken. Her distinction between making (making a decision, altering the state of things) and taking (taking a meaning, accepting the given identity) plays on a common understanding reflected in colloquial language: rather than make, we ‘take’ a conventional photographic picture. ‘If you take a photograph, there's always something in front of you,’ Dumas explained; ‘but with a painting there is nothing.’ (BUTLER, 2008, p.145). 13 Fração do Exército Vermelho (alemão: Rote Armee Fraktion ou RAF.) https://pt.wikipedia.org/wiki/Fra%C3%A7%C3%A3o_do_Ex%C3%A9rcito_Vermelho 40 Figura 15: Revista Stern, manchete da morte de Ulrike Meinhof (1976), registro fotográfico jornalístico. Fonte: http://letteraturaartistica.blogspot.com.br/2015/03/marlene-dumas-ev.html A fotografia, que registra e propaga a mensagem, torna-se um ícone da morte de Meinhof, mas também, um índice: aqui jaz a terrorista alemã, mãe de duas adolescentes, falecida no dia das mães, etc. O índice da dor e frustração de uma mulher, que, a mercê do desespero, prefere dar cabo de sua vida. Essa imagem chocou toda a nação e consequentemente, países vizinhos. Dado o assunto por encerrado na mídia, a imagem torna-se arquivo (Figura 15). A imagem fotográfica jornalística tornou-se modernamente uma forma de criar um Atlas de acontecimentos ou Bilderatlas (Atlas de imagens, concepção de Aby Warburg14 ), sendo por vezes um passatempo para algumas pessoas o clipping de 14 Aby Warburg construiu e agrupou desde 1924 um Atlas de imagens "Mnemosyne" isto é, segundo seu próprio desejo, “Uma História de Arte sem palavras” ou, ainda, uma “história de fantasmas para pessoas adultas”. A obra, na época, agrupava da ordem de 79 painéis, reunindo umas 900 imagens (principalmente fotografias em P&B). Todas são reproduções (de obras artísticas, de pinturas, de esculturas, de monumentos, de edifícios, de afrescos, de baixo-relevos antigos, de gravuras, de grisailles, de iluminuras, mas também de recortes de jornais, selos postais, moedas com efígies) que, 90 anos atrás, Warburg organizava, montava (não necessariamente numa ordem linear de leitura, mas à maneira de peças capazes de serem deslocadas a todo o momento) sobre painéis de madeira (de 1,5m x 2m), recobertos de tecido preto. A história da arte tradicional transfigurava-se em uma antropologia do visual. SAMAIN, Etienne As “Mnemosyne(s)” de Aby Warburg: Entre Antropologia, Imagens e Arte. Revista Poiésis, n 17, p. 37, Jul. de 2011. 41 imagens, recortando e guardando séries de acontecimentos com manchete e registro fotográfico do acontecido. Figura 16: Gerhard Richter, Morta 1 (1988), óleo sobre tela, 62 cm x 67 cm. Fonte: https://www.gerhard-richter.com/en/art/paintings/photo-paintings/baader-meinhof-56/dead- 7687/?p=3 Muitos artistas praticam isso de forma a ter um álbum de fotos para posterior prática de pintura. Gerhard Richter faz uso desse método em seu trabalho, geralmente não é imediatista, ou seja, ele não vê a imagem e usa-a para criar uma pintura, por vezes, guarda e esquece de sua existência para posterior trabalho, como o artista afirma em suas entrevistas a Hans Ulrich Obrist (2009, p. 152). Em 1988, Richter realiza uma série de três pinturas simplesmente intituladas Tote (morto). As três obras foram realizadas inspiradas na imagem de Meinhof morta. De grande similaridade entre si, as pinturas carregam a sensação de morte, a imagem de uma pessoa de forma velada e obscurecida como que por trás de um véu. Isso é devido à técnica de embaçamento de Richter, que emprega isso propositalmente para obscurecer o significado da imagem-matriz (fotografia) e chamar atenção para a pintura (Figura 16). 42 Os três trabalhos são recortes bastante similares da fotografia de Meinhof publicada na revista, e carregam em si a sensação de empatia do artista. Elas expressam “tristeza pelas pessoas que morreram tão jovens e tão loucas, por nada.” (RICHTER apud MAGNANI, 2007, p. 222). Assim concluo que Richter tem um ponto de vista mais direto e próximo desse acontecimento que resultou na morte trágica e pública de Meinhof, e sua perspectiva é de alguém que se importa, traduzindo sensações mórbidas em sua pintura Tote, inclusive através do título da série. Aqui, volto a falar de Dumas, pois como aconteceu uma apropriação para Richter criar a obra, a artista também apropriou-se da mesma fotografia, plenamente ciente que Richter já havia criado uma obra semelhante, mas isso não foi um impedimento para seu trabalho. Porém no caso de Dumas, a perspectiva de reinterpretação da imagem é mais ligada a uma sugestão de êxtase do que de morte: apesar de evocar a revista e o acontecimento através do título Stern, a sensação trazida pela pintura é de vida, sono, morte e entrega, como um orgasmo (Figura 17). Sua pintura, diferente da de Richter, não obedece as normas da proporção de corte da imagem e ocupa quase toda a superfície com a cabeça da figura. Sua preocupação formal também não é complexa, compondo a pintura com pinceladas mais livre e soltas (se observado em relação a Richter), contendo uma expressão artística que é ao mesmo tempo forte, mas possui leveza, semelhante a uma aquarela. Shiff afirma que “Quando Dumas pinta de uma fonte ou modelo de forma fotográfica, fotografia e pintura bem como o modelo vivo tornam-se assuntos a ser experienciados: fotografia e pintura confrontam-se no entendimento de Dumas” (BUTLER, 2008, p. 152). Assim, concluo que a obra de ambos lida com elementos fotográficos e pictóricos, mas cada um deles com suas particularidades. 43 Figura 17: Marlene Dumas, Stern, (2004), óleo sobre tela, 110 x 130 cm. Fonte: http://www.tate.org.uk/art/artworks/dumas-stern-t12312 Dumas faz da fotografia importante parte de sua criação, quase afetiva, através da construção de um acervo de fotos autorais e apropriadas, enquanto Richter tem uma experiência diferente do uso da foto em seu trabalho. Em entrevista, quando perguntado porque a fotografia é importante em seu trabalho, ele respondeu: Porque eu fui surpreendido pela fotografia, que nós todos usamos tão massivamente todos os dias. De repente, eu vi isso de uma nova maneira, como uma imagem que me oferecia uma nova visão, livre de todos os critérios convencionais que eu sempre associei com arte. Não tinha estilo, nem composição, nem julgamento. Isso me libertou para a experiência pessoal. Pela primeira vez, não havia nada: era pura imagem. É por isso que eu queria tê-la, mostrá-lo - não usá-lo como uma forma de pintar, mas usar a pintura como uma forma para a fotografia.15 A reflexão de Richter vai justamente de encontro à multiplicidade da imagem fotográfica. Por isso, ele faz três pinturas de Meinhof, ele está simplesmente explorando 15 Tradução livre, original em inglês: Because I was surprised by photography, which we all use so massively every day. Suddenly, I saw it in a new way, as a picture that offered me a new view, free of all the conventional criteria I had always associated with art. It had no style, no composition, no judgment. It freed me from personal experience. For the first time, there was nothing to it: it was pure picture. That's why I wanted to have it, to show it – not use it as a means to painting but use painting as a means to photography., Gerhard Richter: Text. Writings, Interviews and Letters 1961-2007, Thames& Hudson, Londres, 2009, p. 59 44 a imagem, sem levar tanto em conta o que é mostrado na imagem, qual a história por trás dessa foto. Dumas, para a citada exposição, realizou diversas pinturas de mulheres mortas, criando um elo entre si própria e os trabalhos. Podemos observar também que suas referências não são somente fotos de jornal; obras dos grandes mestres tornam-se também fonte de inspiração. Assim, além da fotografia de publicidade, a imagem (de outras pinturas) torna-se referência para criar, como já vimos em Stern, e acontece novamente em Lucy (Figura 18). Essa pintura traz a referência de uma obra de Caravaggio, sendo a única alusão à seu significado o título da obra. Em Dumas, Lucy é apenas uma cabeça levemente andrógina em tons de ocre e branco. Mas seu panorama é da importância da mulher no próprio tema religioso no qual ele estava incluído, a história de Santa Lúcia, que foi torturada e morta, sendo depois canonizada. Na obra de Caravaggio, temos o enterro de Santa Lúcia. Em Dumas, parece que somos colocados mais próximos a ela, como se fosse uma simples mulher em êxtase, ou dormindo, não fosse pelo gesto mais escuro no pescoço que sugere um corte. Para a artista a referência apropriada é só uma parte da obra final: Identificar o assunto não é a chave para o conteúdo. Entender o que significa o trabalho é olhar para a relação entre o material tecnológico de base (modelos fotográficos) e a imaginação metafísica (do artista), é mais associativo do que descritivo, trata-se das qualidades físicas das obras reais que se reúnem no espaço cultural da exposição.16 16 Tradução livre, original em inglês : “Identifying the subject is not the key to the content. To understand what the work means is to look at the relationship between the technological source material (i.e. photographic models) and the metaphysical imagination (of the artist), it’s associative rather than descriptive, it’s about the physical qualities of the actual works coming together in the cultural space of the exhibition.” http://www.tate.org.uk/art/artworks/dumas-lucy - t12313 45 Figura 18: Marlene Dumas, Lucy (2004), óleo sobre tela, 110 x 130 cm. Fonte: http://www.tate.org.uk/art/artworks/dumas-lucy-t12313 Assim, concluo que a prática de apropriação ocorre livre de julgamentos, já sendo um método de trabalho bastante comum. Usei diversos exemplos na obra de Marlene Dumas e Gerhard Richter para exemplificar esse fato, pois ambos possuem em suas trajetórias questões entre fotografia e pintura que fazem parte de suas pesquisas artísticas. A apropriação/inspiração pode ser, portanto, um método válido de escolha de referências, e o desenvolvimento de um trabalho a partir de uma mesma imagem dependerá das influências e escolhas do artista, que terá de decidir qual será seu foco e como trabalhará a imagem para que esta ganhe autonomia em sua nova forma, isto é, em sua pintura. 46 1.3. Gerhard Richter e Eric Fischl: a pintura como uma forma para a fotografia. Falarei agora da prática de pintura usando a foto em seu processo, tema constantemente abordado em toda nossa pesquisa e ponto principal dessa dissertação, através do estudo sobre métodos de criação de dois artistas. Iniciarei com uma primeira análise de dois trabalhos de Gerhard Richter, que usa a fotografia em seus trabalhos de uma maneira muito própria e variada a cada momento em sua carreira, sendo que seu maior paradigma é a pintura. A respeito dessa relação, Gerhard Richter afirma: “uso a fotografia como Rembrandt usa o desenho ou Vermeer usa a câmera obscura pra um quadro” (RICHTER, in COTRIM e FERREIRA, 2006, p. 116). Ou seja, ele encara a imagem fotográfica como um elemento instrumental em sua pintura. Richter afirma ainda que a foto possui uma abstração própria, tem mais valor de verdade, enquanto quadros tem valor de artifício, mas que quando as imagens extraídas de fotografas são pintadas, “aquilo tem um outro significado, outra informação” (RICHTER, in COTRIM e FERREIRA, 2006, p. 116). O artista afirma que trabalhar com fotos é um processo diferenciado, ou seja, ele pode pintar o que quiser, sem compromisso de inventar nada, desde cartões postais à fotos de animais, aviões, etc. Richter está claramente no universo fotográfico citado por Flusser quando este afirma que “estar no universo fotográfico implica viver, conhecer, valorar e agir em função de fotografias”17 Isto é: “existir em um mundo-mosaico. Vivenciar passa a ser recombinar constantemente experiências vividas através de fotografias” 18 (FLUSSER, 2011, p. 93). 19 Conhecer passa a ser elaborar colagens fotográficas para se ter ‘visão de mundo’. Valorar passa a ser escolher determinadas fotografias como modelos de comportamento, recusando outras. Agir passa a ser comportar- se de acordo com a escolha.20 (FLUSSER, 2011, p. 93) Assim, Gerhard Richter, através da pintura, transmuta a foto em pintura e faz algo que acaba por transcender a imagem, transformando o ícone carregado de 17 Grifos do autor. 18 Grifos do autor. 19Como acontece em eventos e postagens de fotos em rede social. 20 Grifos do autor. 47 memórias e associações pessoais em outra possibilidade imagética, descolada da sua própria referência. Borrando-a, desfocando o significante. Ainda assim, a imagem é perceptível e identificável, como um palimpsesto, como pode ser visto na Figura 19: percebemos um bebe, mas para o artista não é necessário detalhar seus traços ou “respeitar” a figura do bebê, pois noções como sujeito figura e fundo não são a sua principal preocupação: o que importa aqui é a relação da tinta com a superfície, onde ora temos a ilusão representativa, ora ela é quebrada quando tudo se transforma em borrões e é possível enxergar o rascunho Em relação a suas obras Richter afirma ainda que “o emprego da foto vem ao meu encontro: a foto existe para mim como relato sobre uma realidade que não conheço e não avalio, que não me interessa e com a qual não me identifico” (RICHTER, in COTRIM e FERREIRA, 2006, p. 116). A forma se dilui em pinceladas muito soltas e embaçadas, que de certa forma fazem parte de seu gesto e vão de encontro a problemas que se restringem à superfície da tela e também a questionamentos pertencentes à história da pintura, ganhando, assim, ainda mais valor em trajetória artística. Figura 19: Gerhard Richter, Moritz, (2000) óleo sobre tela, 62 cm x 52 cm. Fonte: https://www.gerhard-richter.com/en/art/paintings/photo-paintings/children-52/moritz- 10504/?&categoryid=52&p=1&sp=32 48 Não faço borrões. O fato de eu borrar não é mais importante e não é a marca que identifica meus quadros. Quando dissolvo as delimitações, crio transições, não faço isso para destruir a apresentação (...) as transições em fluxo, as superfícies lisas, equalizadores, esclarecem o conteúdo e tornam a apresentação confiável (uma pintura-primária pastosa recordaria demais a pintura e destruiria a ilusão). (RICHTER, in COTRIM e FERREIRA, 2006, p. 116). É válido entender como foram escolhidas essas imagens, e quais seus critérios de eleição. Em uma entrevista a Benjamin Buchloh, Richter diz que: Eu procurei por fotografias que mostrassem minha vida atual, as coisas eram relacionadas a mim. E eu escolhi fotografias em preto e branco, porque eu percebi que elas mostravam tudo isso de forma mais eficaz do que fotografias a cores, mais diretamente, mais artisticamente, e, portanto, mais credível. Esse é o porquê de eu ter escolhido todas aquelas fotos amadoras de família, esses objetos banais e instantâneos.21 Ainda que mude o assunto, ou seja, alterando de fotos familiares para fotos de alpes, montanhas, Richter afirma que a forma de escolher foi uma tentativa de transmitir um conteúdo de um tipo mais universal, como exemplo dos conjuntos de áridas rochas foi algo que o atraíram naquele momento. Somo a essas afirmativas uma reflexão contida em um artigo sobre o pensamento de Stanley Cavell e Michael Fried das relações entre foto e pintura, onde o autor Diarmuid Costello faz um comparativo dos meios - fotografia e pintura - e, entre proximidades e disparidades, chega à conclusão que há um limite tão tênue entre o que pode ser chamado de fazer pintura e fazer fotografia após o modernismo, que na verdade não há mais como afirmar que um método é puro, ou ainda que ele permanece fiel à sua forma primordial de acontecer (CAVELL, apud COSTELLO, 2008, p. 219). Isso pode ser observado também no apontamento de Costello sobre o trabalho de Richter, que, citando Fried, corrobora a ideia de que deve-se evoluir um método, mas essa evolução acontece de dentro para fora, ou seja, é um processo que demanda tempo de amadurecimento, produção e autoconhecimento, e com isso pode-se obter características de renovação e autodescoberta na construção das imagens, ou, usando o 21 Tradução livre, original em inglês : I looked for photographs that showed my present life, the things that related to me. And I chose black - and- white photographs, because I realized that they showed all this more effectively than color photographs, more directly, more inartistically, and therefore more credibly. That’s why I picked all those amateur family pictures, those banal objects and snapshots. (BUCHLOH, 2009, p. 16) 49 termo do artista, picturing 22 . Para Cavell, isso é um reflexo apreendido com a arte modernista. Segundo ele, essa arte: Está tentando encontrar os limites ou essência de seus próprios procedimentos. E isso significa que não está claro a priori o que importa, ou irá importar, como uma pintura ou escultura ou composições musicais... Nós não temos critérios claros para afirmar se um determinado objeto é ou não uma pintura, uma escultura ... a tarefa do artista modernista, como a da crítica contemporânea, é descobrir do que sua arte, finalmente, depende; não importa se não tenhamos um critério prévio para definir a pintura, o que importa é que percebemos que os critérios são algo que deve descobrir, descobrir na continuidade da própria pintura.23 Parece fazer bastante sentido a forma como essa ideia representa o critério de Richter de tentar fugir da ideia de “fazer pintura” como algo fechado e limitado. Richter (2006, p. 117) afirma que ele quer fazer pinturas da mesma forma que se constroem as fotografias: de forma racional, sem expressividade ou ligação íntima com a imagem, e sim com a quase inconsciência do que aquela imagem representa. Vemos na Figura 20 um exemplo do uso de uma imagem deliberadamente desinteressada da questão de autoria e focada no ritmo e composição da imagem, com uma paleta composta por cinzas cromáticos. Não é uma pintura sobre a experiência em estar nos alpes, vivenciar a natureza, como a obra de Caspar David Friedrich The Sea of ice (1823-24). Essa pintura está mais próxima da imagem de uma forma gestaltiana de uma montanha do que narrativa e significativa, ou seja, enxergamos a montanha pela ligação entre os planos recortados que dão essa ideia, não pela semelhança em cores e texturas. Em Richter, esses elementos são ilusórios e desnecessários. 22 Assim, o que eu frequentemente vi como uma deficiência de minha parte - o fato de eu nunca ter sido capaz de "formar uma imagem" de algo - não é incapacidade de todo, mas um esforço instintivo para chegar a uma verdade mais moderna: De que já estamos vivendo em nossas vidas. (A vida não é o que é dito, mas o ditado, não a imagem, mas imaginar). Tradução livre, original em inglês: So what I have often seen as a deficiency on my part – the fact that I've never been in a position to 'form a picture' of something – is not incapacity at all but an instinctive effort to get at a more modern truth: one that we are already living out in our lives (life is not what is said but the saying of it, not the picture but the picturing). Gerhard Richter: Text. Writings, Interviews and Letters 1961-2007, Thames& Hudson, Londres, 2009, p. 214. 23Tradução livre, original em inglês: Is trying to find the limits or essence of its own procedures. And this mean that is not clear a priori what counts, or will count, as a painting, or sculpture or musical compositions... We haven’t got clear criteria for determining whether a given object is or is not a painting, a sculpture... The task of modernist artist, as of the contemporary critic, is to find what is his art finally depends upon; it doesn’t matter that we haven’t a prior criteria for defining painting, what matters is that we realize that the criteria are something we must discover, discover in the continuity of painting itself. (CAVELL, apud COSTELLO, 2008, p. 219). 50 Figura 20: Gerhard Richter, Gebirge (Montanha) (1968), tinta acrílica industrial s/ tela, 102 cm x 92 cm. Fonte: https://www.gerhard-richter.com/de/art/paintings/photo-paintings/alpine-1/mountains- 5917/?&categoryid=1&p=1&sp=32 No texto do catálogo da exposição Panorama (publicado no site da Sotheby’s) temos uma importante afirmativa sobre a obra Gebirge (Figura 20). De acordo com a explicação conceitual da obra, ela é de certa forma ligada ao romantismo, mas ao mesmo tempo, ultrapassa seu significado simbólico e narrativo. Seguindo as explorações de pintura de fotografias aéreas de cidades e paisagem urbanas em meados da década de 1960, a proposta de Richter o tema de paisagens, marinhas, e paisagens de nuvens com referência aos temas clássicos do Romantismo, no entanto, a representação neutra e sem emoção de montanhas aqui posiciona o artista como uma importante influência conceitual em pintores como Ed Ruscha e Rudolf 51 Stingel. Desprovido de qualquer narrativa ou significado potencial simbólico, Gebirge mostra o interesse de Richter no processo de pintura em relação à fotografia. O borrão como um ataque à clareza da imagem torna- se uma postura conceitual sobre a evolução da pintura e examina a dicotomia clássica de figuração e abstração. Tendo surgido num momento em que a pintura foi declarada como forma artística obsoleta e aparentemente formas mais progressiva foram favorecidas, Gebirge se destaca como uma poderosa meditação sobre possibilidades conceituais do médium e, mais universalmente confere a capacidade de Richter para superar convenções tradicionais, explorando sua própria história. (RICHTER, 2009).24 Da mesma forma como o trabalho do historiador Aby Warburg, podemos verificar aqui uma aproximação ao processo de clipping de Richter intitulado de Atlas onde se encontram diversas fotos de montanhas que serviram de referência para Gebirge (Figura 21). Em seguida, podemos ver uma das partes do Atlas de Warburg (Figura 22). Assim, a prática de coletar imagens funciona como um mapa, criando várias referências para o artista ou pesquisador e sendo uma eficaz forma de armazenar informações que podem ser usadas no futuro para outros trabalhos ou para catalogações e pesquisas sobre o artista. 24 Tradução livre, original em inglês: Following the painterly explorations of aerial photographs of cities and townscapes in the mid-1960s, Richter’s turn towards landscapes, seascapes, and cloudscapes references the classic subjects of Romanticism, yet the neutral and unemotional depiction of mountains here positions the artist as an important conceptual influence on painters such as Ed Ruscha and Rudolf Stingel. Devoid of any potential narrative or symbolic meaning, Gebirge displays Richter’s interest in the process of painting in relation to photography. The blur as an assault on the clarity of the image becomes a conceptual stance on the evolution of painting and scrutinizes the classic dichotomy of figuration and abstraction. Having emerged at a time when painting was declared obsolete and seemingly more progressive artistic forms were favoured, Gebirge stands as a powerful meditation on the medium’s conceptual possibilities and more generally imparts Richter’s ability to overcome traditional conventions by exploring their own history. Gerhard Richter: Text. Writings, Interviews and Letters 1961-2007, Thames& Hudson, Londres, 2009, p. 92. 52 Figura 21: Gerhard Richter, Mountain Ranges, (1968) Atlas, folha 126, 2016, colagem. Fonte: http://www.sothebys.com/en/auctions/ecatalogue/2016/contemporary-art-evening-auction- l16020/lot.27.html Figura 22: Aby Warburg - Mnemosyne: Ascent to the Sun. (1924-1929), Atlas painel 8. Fonte: https://warburg.library.cornell.edu/panel/8 53 Passo assim para outra série de pinturas do artista. No ano de 1999, Richter, em posse de uma câmera fotográfica, fotografou uma paisagem: apenas três registros na cidade de Florença, Itália, às margens do rio Arno. Com essas imagens, ele criou a série Firenze, em 2000, utilizando 118 trabalhos, sendo originárias de fotografias multiplicadas a partir dos três negativos, criando uma notável sequência de overpainted photos. Trata-se de uma técnica elaborada por Richter que consiste em aplicar tinta de forma a subverter a imagem ou o sentido contido na fotografia. Poderíamos afirmar que esse trabalho é uma foto ou uma pintura, mas ele é de fato um híbrido desses meios, por vezes sendo mais pintura do que foto e vice versa, dependendo da quantidade que mais aparece de cada material (Figuras 23 e 24). Figura 23: Gerhard Richter - Imagem 20 de 20 - Firenze (80/99) (2000), pintura sobre fotografia, 12 x 12 cm. Fonte: https://www.gerhard-richter.com/en/art/microsites/firenze?sp=118&s=&p=1 Figura 24: Gerhard Richter -Imagem 16 de 18 - Firenze (80/99) (2000), pintura sobre fotografia,12 x 12 cm. Fonte: https://www.gerhard-richter.com/en/art/microsites/firenze?sp=118&s=&p=1 54 Apesar de essa série não estar totalmente ligada à ideia de pintura figurativa, acredito que é válido inserir aqui, pois estão em xeque o papel da fotografia e da pintura tradicional de cavalete, mescladas nesses trabalhos. Eles não necessariamente tem um semelhante com a visão objetiva (assim como nos seus outros trabalhos), mas, ainda assim, existe a necessidade do artista de dialogar a imagem manual/pintura com a fotografia. Aqui, chama a atenção o fato de duas imagens transformarem-se em duas outras bastante diversas, ocorrendo que só é possível fazermos relação de índice e de significado da imagem se elas estiverem em conjunto e soubermos qual a proposta da série. Se não, o mesmo é abstraído e o que permanece é a textura e diferença entre os matizes. Em ambos os casos, a presença da materialidade da tinta é pesada e intensa, em contraste com a o papel fotográfico impresso com uma imagem que permanece imutável e fixa. A tinta tem uma característica de manchas soltas, deformadas, quase selvagens, parecendo formas totalmente não planejadas, porém expressivas e gestuais (Figuras 25 e 26, sendo essas feitas a partir do mesmo registro). Vale lembrar que a imagem técnica é reprodutível infinitas vezes, e a imagem manual é única. No livro Notas de 1962, Richter, inicia o texto com a frase: “O primeiro impulso em direção à pintura (...) brota da necessidade de comunicação” (RICHTER apud OBRIST, 2009, p. 128). O artista em seguida diz que vê a citação como muito truísta, algo evidente e possivelmente redundante. Ou seja, comunicar, isso é claro, mas não há qualquer mensagem expressa ou única a ser entendida ou ensinada. Figura 25: Gerhard Richter - Imagem 13 de 20 - Firenze (33/99) (2000), pintura sobre fotografia, 12 x 12 cm. Fonte: https://www.gerhard-richter.com/en/art/microsites/firenze?sp=118&s=&p=1 55 Figura 26: Gerhard Richter -Imagem 8 de 20 - Firenze (28/99) (2000), pintura sobre fotografia, 12 cm x 12 cm. Fonte: https://www.gerhard-richter.com/en/art/microsites/firenze?sp=118&s=&p=1 Ele afirma isso em sentença de que a arte não pode ser pela arte, citando isso como um “exagero ritual da arte decadente, burguesa” (RICHTER apud OBRIST, 2009, p. 129) e que deveria comunicar algo, ou seja, não ser algo que busca apenas uma visão agradável, um conceito do que seja belo para o autor: a obra deve ir além, deve transmitir algo além de prazer estético. As pinturas tem certo pendor para a ilusão, mas nunca para a sugestão de uma cena teatral. Há o ponto da relação do artista com a escolha da fotografia. Ainda na entrevista com Obrist, Richter afirma que nunca funciona para ele tirar foto para usar como pintura, e sim, funciona, quando isso ocorre sem premeditações, como quando você faz uma fotografia, esquece da mesma, e algum tempo depois, ao olhar aquela imagem, o registro suscita algo de interessante que pode vir a se tornar pintura. Se partimos do pressuposto que a fotografia é uma forma de registrar memórias, podemos considerar que a imagem técnica ajuda a construir memórias e histórias 25 e além da perspectiva comunicativa, uma perspectiva narrativa. Dessa forma é possível também construir uma história. Para exemplificar esse tipo de processo de escolha e eleição de imagens técnicas para pintura, falarei de alguns trabalhos de Eric Fischl e sua relação com imagens e métodos de criação. 25 Esse tema será abordado no capítulo dois. 56 Eric Fischl é um artista americano nascido em Nova York, em 1948. No ano de 2012 foi inaugurada no Pennsylvania Academy of Fine Arts, na Filadélfia, uma grande retrospectiva do artista. A exibição percorreu diversos museus, tais como o San Jose Museum of Arts, na Califórnia. A exposição, intitulada Dive Deep, contou com o lançamento de um catálogo contendo cento e quarenta e cinco obras de arte, incluindo cinquenta fotografias e quatorze pinturas de 1979 até aquele ano que descreviam como era seu trabalho a fundo. Essa mostra, além de exibir grandes pinturas de Fischl, seu processo e séries completas de trabalho, trazia ao público algo que muitas vezes fica eclipsado após o trabalho pronto: a pré-produção daquelas obras, a forma como o artista desenvolvia sua pesquisa. Além de vídeo entrevistas e diversos textos, Fischl trouxe à divulgação muitas fotografias que foram feitas por ele para compor o que seria o primeiro conceito dos trabalhos. Dessa forma, ele constrói as narrativas para usá-las como aparato na pintura. Para aprofundar e entender essa relação, falarei de alguns trabalhos contidos nesta mostra. Um das séries que me chamou a atenção foi Krefeld Project devido à riqueza de sua pré-produção, nada ao acaso. Em 2002 a diretoria do Museu Haus Esters, em Krefeld, na Alemanha, convidou Fischl para uma exposição individual na instituição e ele resolveu criar trabalhos usando as próprias instalações do local como cenário para as pinturas. O Museu foi projetado em 1928 por Mies van der Rohe para servir de